L'Œuvre au Noir
«Caíra a noite, sem que ele soubesse se seria em si próprio, se na sua cela: tudo era noite. Também a noite se movimentava: as trevas afastavam-se para darem lugar a outras trevas, abismo sobre abismo, espesso negrume sobre espesso negrume. Mas esse negro, tão diverso daquele que com os olhos se apercebe, fremia de cores nascidas, por assim dizer, da sua própria ausência; o negro tornava-se verde lívido, depois branco puro; o branco pálido transmutava-se em ouro rubro, sem contudo perder a negrura original, tal como o lampejo dos astros e da aurora boreal cintila no meio daquilo que, apesar de tudo, é noite escura. Por um instante, que lhe pareceu eterno, palpitou sobre ele, ou fora dele, um globo escarlate, que sangrou sobre o mar. Como o Sol de Verão nas regiões polares, também a brilhante esfera pareceu hesitar, prestes a descer um grau no nadir, após o que, num sobressalto imperceptível, voltou para o zénite e se reabsorveu, enfim, numa luz ofuscante que era, ao mesmo temp...