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A mostrar mensagens de junho, 2017

Veil Unweil

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"Assim, nesse antigo e maravilhoso poema [Ilíada] aparece já o mal essencial da humanidade, a substituição dos fins pelos meios. Ora a guerra aparece em primeiro plano, ora a procura da riqueza, ora a produção, mas o mal continua o mesmo. Os moralistas vulgares queixam-se de que o homem é arrastado pelo seu interesse pessoal; oxalá fosse isso! O interesse é um princípio de acção egoísta, mas limitado, razoável, que não pode gerar males ilimitados. A lei de todas as actividades que dominam a existência social, é, ao contrário, exceptuando-se o caso das sociedades primitivas, que cada um sacrifique a vida humana, em si mesmo e em outrem, por coisas que não passam de meios de viver. Esse sacrifício reveste-se de diversas formas, mas tudo se resume na questão do poder.  O poder, por definição, não passa de um meio; ou, mais exactamente, possuir um poder consiste simplesmente em possuir meios de acção que ultrapassam a força tão restrita de que um indivíduo dispõe sozinho. Mas a ...

ósculo

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Cristo entregando as Chaves a São Pedro por Pietro Perugino (1481-82) Fresco, 335 x 550 cm Capela Sistina, Vaticano «Aos anciãos, pois, que há entre vós, rogo eu, que sou ancião com eles e testemunha dos sofrimentos de Cristo, e participante da glória que se há de revelar: Apascentai o rebanho de Deus, que está entre vós, não por força, mas espontaneamente segundo a vontade de Deus; nem por torpe ganância, mas de boa vontade; nem como dominadores sobre os que vos foram confiados, mas servindo de exemplo ao rebanho. E, quando se manifestar o sumo Pastor, recebereis a imarcescível coroa da glória. Semelhantemente vós, os mais moços, sede sujeitos aos mais velhos. E cingi-vos todos de humildade uns para com os outros, porque Deus resiste aos soberbos, mas dá graça aos humildes. Humilhai-vos, pois, debaixo da potente mão de Deus, para que a seu tempo vos exalte; lançando sobre ele toda a vossa ansiedade, porque ele tem cuidado de vós. Sede sóbrios, vigiai. O vosso adversário,...

Pacific Void

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In this cold place Who will save me? Who will take The place of God tonight? Oh, did I believe Oh, really believe that I could see light That's hopeless and clearer Than dawn I got no life I got no hope I got no will I got nowhere to go I lost my soul I cut my skin I'm so ashamed At how it all began I looked so hard For a savior But then There's nothing left to save I would waste their time I know I've wasted mine 'Cause tonight I'm hopeless And clearer than dawn I got no life I got no hope I got no will I got nowhere to go I lost my soul I cut my skin I see my life At how it all begins I got no life I got no hope You wanted more I got no more to know I couldn't speak I couldn't stand I'm so ashamed At how it all began But I am tired I'm feeling like my skin just holds me wrong And I'm tired I'm tired of all I've done And I'm tired of this prison without walls And ...

Adorable Speach

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«Cruzo-me, ao longo da minha vida, com milhares de corpos; desses milhares posso desejar umas centenas; mas, dessas centenas, amo apenas um. O outro por quem estou apaixonado mostra-me a especialidade do meu desejo.  Tal escolha, tão rigorosa que só contempla o Único, estabelece, por assim dizer, a diferença entre a transferência analítica e a transferência amorosa; uma é universal, a outra é específica. Foram precisos muitos acasos, muitas coincidências surpreendentes (e talvez muitas tentativas), para que eu encontrasse a Imagem que, entre mil, convém ao meu desejo. Eis o grande enigma cuja solução jamais conhecerei: por que razão desejo eu aquele Tal? Por que razão o desejo duradouramente, languidamente? É a ele que desejo por inteiro (uma silhueta, uma forma, um ar)? Ou apenas uma parte desse corpo? E, nesse caso, o que é que tem, neste corpo amado, a vocação de fetiche para mim? Que parcela, talvez incrivelmente ténue, que acidente? O corte de uma unha, um dente...

Foco Eminente

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«No contexto do turismo total, a utopia já não é um lugar estático e imóvel: é a cidade universal, onde se realizou a coincidência entre viver e viajar e onde não existe diferença perceptível entre os residentes da cidade e os seus visitantes. Há um processo de monumentalização levado a cabo pelo turismo e acabamos por olhar a nossa própria cidade com os olhos do turista que a monumentaliza, tal como o alentejano que voltava as costas ao mar e à paisagem que era para ele completamente hostil fala hoje encantado, usando uma designação inventada há algumas décadas pelo turismo, do seu “litoral alentejano”. A crítica do turismo baseada nos direitos dos autóctones vai perder em breve o seu fundamento. A razão do autóctone vai dissolver-se no turismo total. O lugar crítico da mobilização total, o que há hoje de mais parecido a um posto militar em desordem são os aeroportos. Uma personagem trágica do “alegre apocalipse” vienense, Otto Weininger, escreveu num aforismo que de uma es...

kohl pencil

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Vem à Quinta-feira. É quase fim-de-semana e podemos, talvez, beber uma cerveja ao cair da tarde, enquanto planeamos a viagem a Paris. E se Paris for muito caro - sei que isto não está fácil - podemos ir a Guimarães assistir a um concerto, que ouvir é a maneira mais pura de calar. Vem à Quinta-feira. A seguir, temos ainda a Sexta e talvez me esperes à porta do emprego, e talvez fiques para Sábado e Domingo, e talvez o mundo pare de acabar tão depressa. Vem à Quinta-feira. Mas não venhas nesta, vem na próxima. Nesta, tenho um compromisso que não posso adiar, é um compromisso profissional - sabes que isto não está fácil - e talvez nos dê hipótese de irmos a Paris ou a Guimarães. Vem na próxima, que eu preciso de tempo para arranjar o cabelo, para arranjar o coração, para elaborar a lista do que me falta fazer contigo. Vem à Quinta-feira e não te demores. Enquanto te escrevo, já fui elaborando a lista (sabes como gosto de pensar em tudo ao mesmo tempo) e af...

Alípio

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o repouso do guerreiro Baía de Guanabara Santa Cruz na fortaleza Está preso Alípio de Freitas Homem de grande firmeza Em Maio de mil setenta Numa casa clandestina Com campanheira e a filha Caiu nas garras da CIA Diz Alípio à nossa gente: "Quero que saibam aí Que no Brasil já morreram Na tortura mais de mil Ao lado dos explorados No combate à opressão Não me importa que me matem Outros amigos virão" Lá no sertão nordestino Terra de tanta pobreza Com Francisco Julião Forma as ligas camponesas Na prisão de Tiradentes Depois da greve da fome Em mais de cinco masmorras Não há tortura que o dome Fascistas da mesma igualha (Ao tempo Carlos Lacerda) Sabei que o povo não falha Seja aqui ou outra terra Em Santa Cruz há um monstro (Só não vê quem não tem vista Deu sete voltas à terra Chamaram-lhe imperialista Baía da Guanabara Santa Cruz na fortaleza Está preso Alípio de Freitas Homem de grande firmeza Zeca Afonso

Labor Mirabilis

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um dia escreverei o romance que me falta a poesia não passa de um ofício de preguiça e no meu caso além de preguiçosa prefere o curto prazo fisga de bolso que fala do umbigo é certo que nunca escrevi nada de extraordinário apesar das cartas da aliete e da citação do meu nome no prefácio da antologia maior da poesia portuguesa . se isto é um poema eu devo estar varridamente louco mas também outros o estiveram e tudo gente da pesada estou farto de rimar amor com dor ou mesmo violácea com rosácea enquanto mexo os dedos à procura da métrica que resuma o rigor do mundo . só que o mundo não tem nenhum rigor dum lado e doutro do dito ó meus irmãos já me passou o tempo das ilusões e pude ver com os meus olhos as várias encenações da felicidade . um dia escreverei o romance que (me) falta encher-me-ei de coragem para lutar com as palavras durante meses os amigos interrogar-se-ão sobre a minha ausência eu próprio ficarei espantado por abdicar voluntariamente da vida a fav...

Order Angst

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Há sempre um lugar onde as coisas começam. É uma hipótese improvável, esta. Uma convenção apenas dizendo-nos que tempo e espaço se enlaçam na experiência e que a linguagem corre, se precipita para algum lado, um lugar onde tudo adquire um sentido último e primeiro, outra vez. Trata-se de uma convenção que me é fundamentalmente alheia. Gostaria de acreditar que os poemas não surgem dessa seta claramente transposta, e que, impregnados — densos — de sentido, acabam afinal por não ter sentido. Porém, não gosto de dizer que estão do lado do som. Prefiro a ideia de eco. O som terá acontecido, e o mundo — na sua materialidade de que a linguagem faz parte — devolve-me o som. O som da minha voz? Da corrente de consciência que em mim circula como um vento que espalha aquilo que sou? Os poemas não são vectoriais, são escalares. Uma parte considerável do que escrevi prende-se com uma concepção da experiência que a faz presa — sujeitando-se à devoração — de uma atmosfera. Estou a falar da ines...

Começar

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"El canto de los pájaros en Otoño", Joan Miró, 1937, Serralves 2016 Se eu fosse cego amava toda a gente. Não é por ti que dormes em meus braços que sinto amor. Eu amo a minha irmã gemea que nasceu sem vida, e amo-a a fantazia-la viva na minha edade. Tu, meu amor, que nome é o teu? Dize onde vives, dize onde móras, dize se vives ou se já nasceste. Eu amo aquella mão branca dependurada da amurada da galé que partia em busca de outras galés perdidas em mares longissimos. Eu amo um sorriso que julgo ter visto em luz do fim-do-dia por entre as gentes apressadas. Eu amo aquellas mulheres formosas que indiferentes passaram a meu lado e nunca mais os meus olhos pararam nelas. Eu amo os cemiterios - as lágens são espessas vidraças transparentes, e eu vejo deitadas em leitos florídos virgens núas, mulheres bellas rindo-se para mim. Eu amo a noite, porque na luz fugida as silhuetas indecisas das mulheres são como as silhuetas indecisas das mulheres que vivem em me...

Everything Now

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Every inch of sky's got a star Every inch of skin's got a scar I guess we've got everything now Every inch of space in your head Is filled up with the things that you read I guess you've got everything now Everything you've ever seen Fills the spaces up in your dreams You've got everything now (Everything now) (Everything now) Every inch of road's got a sign And every boy uses the same line You've just done everything now Every song that I've ever head Is playing at the same time, it's absurd It reminds me, we've got everything now Turn the speakers up till they break Cos every time you smile it's a fake! Stop pretending, you've got... Everything now! (I need it) Everything now! (I want it) Everything now! (Can't live without it) Everything now! Everything now! Everything now! Every inch of earth's got a town Daddy, how come you never come round? I mis...

Portuguex Silex

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Num poema curto a corrente do sangue corria como um planeta levando no dorsal a filosofia pública da hora, e a luz nua e directa incidia sobre o corpo, real, absoluta. Hoje o poema teima sempre em ser maior, e a história, o tempo, a memória e o verso porque é velho, ocultam-lhe a idade nas curvas irreconhecíveis dum vulto. É sempre cada vez mais longa a maratona, e as insistentes palavras parecem desistir enquanto avançam. POEMA QUE FOI CURTO De A Sombra do Mar, Armando Silva Carvalho (2015) Morreu o Poeta