Foco Eminente
«No contexto do turismo total, a utopia já não é um lugar estático e imóvel: é a cidade universal, onde se realizou a coincidência entre viver e viajar e onde não existe diferença perceptível entre os residentes da cidade e os seus visitantes. Há um processo de monumentalização levado a cabo pelo turismo e acabamos por olhar a nossa própria cidade com os olhos do turista que a monumentaliza, tal como o alentejano que voltava as costas ao mar e à paisagem que era para ele completamente hostil fala hoje encantado, usando uma designação inventada há algumas décadas pelo turismo, do seu “litoral alentejano”. A crítica do turismo baseada nos direitos dos autóctones vai perder em breve o seu fundamento. A razão do autóctone vai dissolver-se no turismo total.
O lugar crítico da mobilização total, o que há hoje de mais parecido a um posto militar em desordem são os aeroportos. Uma personagem trágica do “alegre apocalipse” vienense, Otto Weininger, escreveu num aforismo que de uma estação de comboio não se pode partir para a liberdade. Só um pessimismo radical ou a visão dos comboios cheios de gente “como piolhos” que chegavam a Auschwitz (mas Weininger, conhecido, aliás, por ter elaborado, num livro intitulado Sexo e Carácter, uma exaltada teoria anti-semita e misógina, suicidou-se em 1903, com 23 anos, na casa onde também tinha morrido Beethoven) pode dizer tal coisa de uma estação de comboio. Talvez a sentença se tenha tornado verdadeira para designar os aeroportos na época do turismo total.»
António Guerreiro - O Turismo Total (última Estação Meteorológica no Y)
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