Labor Mirabilis

um dia escreverei o romance que me falta
a poesia não passa de um ofício de preguiça e no meu caso
além de preguiçosa prefere o curto prazo
fisga de bolso que fala do umbigo
é certo que nunca escrevi nada de extraordinário
apesar das cartas da aliete e da citação do meu nome
no prefácio da antologia maior da poesia portuguesa
.
se isto é um poema eu devo estar varridamente louco
mas também outros o estiveram e tudo gente da pesada
estou farto de rimar amor com dor ou mesmo
violácea com rosácea enquanto mexo os dedos
à procura da métrica que resuma o rigor do mundo
.
só que o mundo não tem nenhum rigor
dum lado e doutro do dito ó meus irmãos
já me passou o tempo das ilusões e pude ver
com os meus olhos as várias encenações da felicidade
.
um dia escreverei o romance que (me) falta
encher-me-ei de coragem para lutar com as palavras durante meses
os amigos interrogar-se-ão sobre a minha ausência eu próprio
ficarei espantado por abdicar voluntariamente da vida
a favor de resmas de papel cobertas de fantasmas
.
talvez então a poesia se transforme numa memória juvenil
um triciclo abandonado nos quintais do medo e eu me ria
de muita coisa que escrevi em degraus desesperados
quase sempre a contragosto e pouco convencido
.
talvez então escreva o que até hoje silenciei
sobre a minha geração que viveu demasiado
os sessenta a guerra os rios do exílio o amor
clandestino a liberdade enfim e depois o desencanto
principalmente o desencanto

Manuel Alberto Valente [um dia escreverei o romance que me falta], in "Poesia Reunida. O pouco que sobrou de quase nada", Quetzal Editores, 2015, p. 69-70


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