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A mostrar mensagens de novembro, 2011

Nicolarte

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Dar. Não sei se é da época mas o efeito passa por este gesto que tem mil vezes o retorno inexpectável desse calor do receber com o mesmo prazer da dádiva. E temos tanto de bom, em pequenas simpatias, a mais genuína criatividade da obra inspirada no acaso, original, assaz breve mas para sempre. Então chega num ímpeto do momento o convite, a proposta, o presente, cheio, enfeitado e misterioso (o que será?) – e a novidade do espaço, a curiosidade carregada pelos gentios que se acumulam na entrada e esse cheiro da classe na descoberta, faz sentirmo-nos os mais nobres dos seres ali, a saborear aquele espectáculo e a celebrar o cabaret da vida. Continuamos no burlesco inusitado da coisa: mais um mosteiro vizinho renovado na solidariedade crescente dos tempos difíceis que nos fazem acreditar nessa instintiva bondade humana, essa conquista permanente do outro que nos devolve todo o esforço numa tarde soalheira (mas fria) pelo vale das areias do Cávado, a serra da Pousa e os montes que s...

Do Fado

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Alguém, que Deus já lá tem Pintor consagrado que foi bem grande e nos dói já ser do passado pintou numa tela com arte e com vida a trova mais bela da terra mais querida subiu, a um quarto que viu à luz do petróleo e fez o mais Português dos quadros a óleo o Zé de Samarra com a amante a seu lado com os dedos agarra percorre a guitarra e ali vê-se o fado faz rir A ideia de ouvir com os olhos, senhores fará, mas não p'ra quem já ouviu, mas em cores há vozes d'Alfama naquela pintura a a banza derrama canções de amargura dali vos digo que ouvi a voz que se esmera dançando o Faia banal cantando a Severa aquilo é bairrista aquilo é Lisboa boémia e fadista aquilo é de artista aquilo é Malhoa aquilo é bairrista aquilo é Lisboa boémia e fadista aquilo é de artista e aquilo é Malhoa by José Galhardo / Frederico Valério Agora, Património da Humanidade .

љубави и правде

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If not for your eyes There would be no sun In our blind apartment If it wasn't for your laughter From the eyes, the walls would Never vanish If not for your nightingales The willows would never Tenderly cross the doorstep If not for your hands The sun would never Stay a night in our dream Kalenics Why my eyes On your face Angel brother? Colours dawn On the edge of oblivion Unknown shadows Won’t let me sheath Your sword’s thunder Colours ripen On a light bough of time Why your beautiful spite In the corner of my lips Angel brother? Colours burn In the youth of my blood. Poem nº22 Our day is a green apple Cut in half I look at you You don't see me There's a blind sun between us On the stairway Our torn-apart hug You call me I don't hear you There's deaf air between us In the shop-windows My lips seek Your smile On the crossroads Our run-over kiss I've given you a hand You can't feel it The ...

Mr. (Scr)Duffy

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“Mr. Duffy não suportava nem a desordem física nem a mental. Um médico da Idade Média considerá-lo-ia um melancólico. No seu rosto podia ler-se a história completa da sua vida, e a pele possuía a mesma tonalidade acastanhada das casas de Dublin. Na grande e volumosa cabeça crescia cabelo preto, e o bigode escuro não conseguia disfarçar completamente a boca desagradável. As maçãs do rosto, muito desenvolvidas, emprestavam ao semblante um certo carácter, mas o olhar não tinha dureza, os olhos fitavam o mundo por baixo das sobrancelhas escuras, e davam a impressão de que estavam sempre abertos para encontrar um instinto de redenção nos outros, mas muitas vezes ficavam desapontados. Vivia a certa distância do seu corpo, olhando para os seus próprios actos com olhares de esguelha. Possuía um estranho «hábito autobiográfico», que o fazia compor, de tempos a tempos, uma curta sentença sobre si mesmo, contendo o sujeito na terceira pessoa e o predicado no pretérito. Nunca dava esmolas a ...

La Luxuración

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Pela noite que a antecedia, senti o frio apressar as folhas a caírem; voltei a casa e dormi, aguardando a jornada seguinte. Logo que pude, saí para desinscrever-me da fase do desemprego e enviar a carta de suspensão para a segurança social nos correios (em ambos havia um serviço mínimo de funcionários que atendia um número ainda menor de utentes). Compro o álbum sobre as judiarias nacionais de quatrocentos com suporte cartográfico_filatélico e quando regresso, recebo a chamada da mãe informando sobre o último cheque que me despacho a pedir-lhe se consegue saber como se devolve. Sigo a pé para a escola com o calor do meio_dia a aquecer-me o corpo, aceito o convite do colega para almoçar na casa com vista para este e picoto, partilhamos refeição e boleia com a sua querida e recém_esposa. Depois acompanho-o até ao departamento de recursos humanos da universidade no paço medieval para se candidatar enquanto se dá a materna resolução do caso final. Na volta do intervalo, dirijo-me...

Saraband

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"O cinema não é um ofício. É uma arte. Cinema não é um trabalho de equipa. O director está só diante de uma página em branco. Para Bergman estar só é colocar questões; filmar é encontrar as respostas. Nada poderia ser mais classicamente romântico". Jean Luc Godard "Bergmanograma", Cahiers du cinèma, Julho - 1958

Blindness

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“É da natureza humana acreditar que haja necessariamente uma estratégia nesta crise ou um plano de contingência pronto a entrar em marcha contra o pior, quando chegar o momento. E se não for assim? E se tivermos subestimado a mistura de teimosia, ganância e estupidez tão peculiar ao governo dos assuntos humanos? O que nos leva a crer que, no pior momento, os responsáveis façam o que for necessário? Quantos “piores momentos” não passaram já sem que eles tivessem agido? Se houvesse uma estratégia por detrás de tudo isto, teríamos porventura chegado aonde chegámos? A hipótese alternativa é que, como no livro de Saramago, à cegueira de um se siga a cegueira de todos. Os acontecimentos dos últimos dois anos parecem dar-lhe razão e talvez já tenha chegado o momento em que cada um, preso ao seu interesse imediato, arraste os outros para o abismo de que todos não conseguirão sair.” Rui Tavares no Público de hoje, depois de um jacinto em bolbo e de dois pequenos hiperastros cor d...

haecceitas

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“A literatura difere da vida na medida em que a vida é homogeneamente repleta de detalhes, e raramente nos chama a atenção para eles, enquanto a literatura nos ensina a reparar – a reparar na maneira como a minha mãe , digamos, limpa os lábios antes de me beijar; no som de berbequim de um táxi londrino, quando o seu motor a diesel entra flacidamente em ponto morto; na semelhança das linhas brancas nos casacos de cabedal velho com as estrias de gordura em bocados de carne; na maneira como a neve recente «range» debaixo dos pés; na maneira como os braços de um bebé são tão gordos que parecem atados com cordéis (ah, os outros exemplos são meus, mas o último é de Tolstói!).” James Wood , How Fiction Works (2008) Ed.Quetzal Trad. de Rogério Casanova, Pag. 80-81 “- Moscovo! Moscovo! A mãezinha de brancas pedras – exclamou Piotre Ivanovitch, na manhã seguinte, enquanto esfregava os olhos e ouvia o repique dos sinos na azinhaga Gazetnii. Não há nada que ressuscite o passado com m...

Encadenados

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Hombres Mujeres Y la piel que habitan... (Homenage a Almodóvar y Banderas... Ah, y al tigre!)

Half (Middle) Tunnel

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“…Estranho como os segredos de poder deste tipo são actualmente partilhados com as bases que arrastam o corpo moribundo das organizações – neste momento dispostas a partilhar a responsabilidade dos seus actos e ideias para criar uma visão comum e conjunta entre todos os envolvidos e a questão do para quem estamos a trabalhar…” Tiro a roupa dos forrinhos; sobre a cama, com a luz do candeeiro da gémea (sobre a mesa de cabeceira azul do pai e seu tampo de mármore) a alumiar, dobro-a cuidadosa e geometricamente, empilhando-a com esmero; ligo à P e ao Dave para convidá-los para um chá depois do outlet mas não atendem (não, curiosamente por esta ordem) enquanto ouço os três cd’s descobertos como lembrança dos antigos amores ; busco boedo e a sua esquina , confirmo a dívida de verão e da chuva raiana materna. Surge o convite para mais um jantar dos morzinhos depois do lar ardido e curado; junto o molho dos recibos de compras e multibanco e deito fora uma embalagem de bacalhau do pacífic...

FourtyFour

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Chegado após cinco horas de viagem, encontro a aniversariante no centro comercial a abarrotar de consumidores pré-natalícios para levarmos pilhas para a máquina fotográfica e cassetes para a máquina de filmar. Seguimos para a casa do bisnog que arrastamos para a segunda noite da festa cigana que a própria não efectiva por ter a mãe e a filha em casa – e nada como um bom sono de beleza para a grande parada. Assim, seguimos os dois em busca do Acácio no Artimanhas e descemos, primeiro a duque de Loulé e depois a liberdade toma conta de nós: café no irlandês do rossio (péssimo e caro), entrega de chaves do bar, busca inglória do barman superior da Zé dos Bois e então Purex e bares de copos soltos, encontrar o trio antigo que nos leva pelos novos bares Woof – primeiro de conversa de conexão, depois o quarto escuro da perdição e desilusão antes de, provavelmente, rebentarmos a pista e regressarmos a pé para casa. O dia seguinte será em grande, pela Graça por víveres para o jantar e d...

Esa Noche

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Para lembrar a exposição de fotografia e o ano anterior à sua morte: Poema Canto de la huida de Nezahualcóyotl de Texcoco (De Nezahualcóyotl cuando andaba huyendo del señor de Azcapotzalco) En vano he nacido, en vano he venido a salir de la casa del dios a la tierra, ¡yo soy menesteroso! Ojalá en verdad no hubiera salido, que de verdad no hubiera venido a la tierra. No lo digo, pero… ¿qué es lo que haré?, ¡oh príncipes que aquí habéis venido!, ¿vivo frente al rostro de la gente? ¿qué podrá ser?, ¡reflexiona! ¿Habré de erguirme sobre la tierra? ¿Cuál es mi destino?, yo soy menesteroso, mi corazón padece, tú eres apenas mi amigo en la tierra, aquí. ¿Cómo hay que vivir al lado de la gente? ¿Obra desconsideradamente, vive, el que sostiene y eleva a los hombres? ¡Vive en paz, pasa la vida en calma! Me he doblegado, sólo vivo con la cabeza inclinada al lado de la gente. Por ésto me aflijo, ¡soy desdichado!, ...

Kamikaze

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Ao Pai, à Ana e a todos os espíritos que nos formam: I was born in londonderry I was born in derry city too Oh what a special child To see such things and still to smile I know that there was something wrong But I kept my head down and carried on I grew up in enniskillen I grew up in inis ceathlain too Oh what a clever boy To watch your hometown be destroyed I know that would not stay long So I kept my head down and carried on Who cares where national borders lie Who cares whose laws you’re governed by Who cares what name you call a town Who’ll care when you’re six feet beneath the ground From the corner of my eye A hint of blue in the black sky A ray of hope, a beam of light An end to thirty years of night The church-bells ring, the children sing What is this strange and beautiful thing It’s the sunrise Can you see the sunrise? I can see the sunrise

Celtic Heart

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Neste dia em agosto tinha início de férias, fim do contrato e decido visitar um dos mais emblemáticos festivais , até porque o apelo do grupo maravilha era irrecusável – desperta um dia chuvoso a caminho do douro onde vislumbro entre a neblina o planalto da penha longa e o esventrado percurso do rio que desço (ou subo) pelo carrapatelo até alcançar Cinfães, nas milhentas contracurvas de paisagem estonteante; e o sol abre-se no alto de montemuro, revelando a natureza desértica e bela do ermo – pela Carvalhosa até à ermida, voltando pela parada de Ester onde um coração verde explode nos vales do Paiva até às encostas; paro para perguntar do atalho no mapa que existe e atravesso-o por caminhos de (e com) cabras, gafanhão até ao cume de são Macário, ao fundo a aldeia típica da Pena, toda a crista – e volta a nebular com uma trépida descida, a guis liga, chego a Carvalhais e debaixo de uma chuva intensa, estaciono perto da igreja e dirijo-me ao bar onde espero que acalme e tudo começa: ...

Desassossego

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“A civilização é uma educação de natureza. O artificial é o caminho para uma aproximação ao natural. O que é preciso, porém, é que nunca tomemos o artificial por natural. É na harmonia [entre os dois] que consiste a naturalidade da alma humana superior.”

Second Chance

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Não é por acaso. Há razões fora do nosso alcance e bem lá no fundo reconhecemo-nos nas atitudes dos outros, apesar da incompreensão primária. Podemos sempre voltar, não importa se a página ou atrás, a um lugar do coração ou às origens que nos levam a novas aventuras. Mas implica que no mesmo contexto, mesmo quando a porta não abre, possamos entrar e decidir que é ali que queremos lavrar esse campo da igualdade em condições distintas, assumidas como um perdão a nós mesmos, nesse passo que nos sustenta a retaguarda e impede de sair. Que esse rabo de fora serpenteie como uma corrente e se torne a bandeira do erro, agarrando-nos no evitamento da queda abrupta no vazio, colossal circuito ininterrupto das coisas velhas que permanecem com um sopro de pó. Nothing Fails from Madonna on Vimeo . (Para a P. A partir de 2.22) Estendo a roupa de sempre pendurando-me na janela já lavada e vislumbro o gesto idêntico do lento acender do cigarro e nas primeiras baforadas elegantes, chamo-...

Sine Nomine

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Orémus pro fidelibus defunctis. Réquiem ætérnam dona eis, Dómine, et lux perpétua luceat eis. Requiéscant in pace. Amen. Pro frátribus nostris abséntibus. Salvos fac servos tuos, Deus meus, sperántes in te. Mitte eis, Dómine, auxílium de sancto. Et de Sion tuere eos. Dómine, exáudi oratiónem meam. Et clamor meus ad te véniat. Dóminus vobíscum. Et cum spíritu tuo. Sanctus, Sanctus, Sanctus, Dominus Deus Sabaoth. Pleni sunt cæli et terra gloria tua. Hosanna in excelsis. Benedictus, qui venit in nomine Domini. Hosanna in excelsis. "Não podes explicar o mundo, ages porque queres perceber, travas a acção porque queres perceber, mas nunca percebes. A tua vida é inexplicável. Nos actos não há resto zero e nem os números são o que pensamos. Só a paixão é exacta." Gonçalo M. Tavares "Água, Cão, Cavalo, Cabeça" 2006  Ed.Caminho Pag.86