haecceitas
“A literatura difere da vida na medida em que a vida é homogeneamente repleta de detalhes, e raramente nos chama a atenção para eles, enquanto a literatura nos ensina a reparar – a reparar na maneira como a minha mãe , digamos, limpa os lábios antes de me beijar; no som de berbequim de um táxi londrino, quando o seu motor a diesel entra flacidamente em ponto morto; na semelhança das linhas brancas nos casacos de cabedal velho com as estrias de gordura em bocados de carne; na maneira como a neve recente «range» debaixo dos pés; na maneira como os braços de um bebé são tão gordos que parecem atados com cordéis (ah, os outros exemplos são meus, mas o último é de Tolstói!).”
James Wood, How Fiction Works (2008) Ed.Quetzal Trad. de Rogério Casanova, Pag. 80-81
“- Moscovo! Moscovo! A mãezinha de brancas pedras – exclamou Piotre Ivanovitch, na manhã seguinte, enquanto esfregava os olhos e ouvia o repique dos sinos na azinhaga Gazetnii.
Não há nada que ressuscite o passado com maior intensidade do que os sons. O repique dos sinos, a vista da branca parede que se divisava da janela, bem como o ruído das carruagens, lembravam a Labazov não só a Moscovo em que vivera trinta e cinco anos antes, mas também o Kremlin, o dos Cáceres, etc., que tinha cravados no coração. Experimentou uma alegria pueril pelo facto de ser russo e de se encontrar naquela cidade.
O seu roupão desapertado, que deixava a descoberto a camisa de percal, a boquilha de âmbar, o lacaio com os seus ademanes repousados, o chá, o aroma do tabaco, os beijos e as vozes de seus filhos fizeram com que o dezembrista se sentisse como em sua casa, tal como se estivesse em Nova Iorque ou em Paris. Gostaria de apresentar aos meus leitores o herói dezembrista para lá das fraquezas humanas, mas tenho de reconhecer, em homenagem à verdade, que Piotre Ivanovitch se barbeou, se penteou e se contemplou ao espelho com especial cuidado. O fato que lhe tinham feito na Sibéria não era do seu agrado: apertou e desapertou a sobrecasaca umas poucas de vezes para ver como lhe ficava melhor.”
“- Recordas-te desse sentimento de alegria quando, crianças, no dia do teu aniversário, voltavas para casa depois de teres ouvido missa e encontravas à tua espera visitas e brinquedos? A festa reflectia-se-te no trajo, na cara e na alma. Sabias que aquele dia era excepcional, não havia aula e festejavam-no inclusivamente as pessoas crescidas, era uma alegria para todos da casa, sabiam que eras tu a causa daquela solenidade e que se te perdoaria qualquer coisa que fizesses; surpreendia-te que as pessoas da rua não estivessem em festa também, como a tua família, que os sons não fossem mais sonoros e as cores mais vivas: numa palavra, que não tivessem todos a sensação de que aquele era o teu dia de anos. Eis o estado de espírito de Piotre Ivanovitch ao voltar da igreja.”
Lev Tolstoi, Os Dezemberistas (incluído no Vol.67 “A Felicidade Conjugal” das Ed.Unibolso Trad. de João Marcos Pag. 172/3-176/7)
Comentários
Enviar um comentário