Suspended Pragmatism
(...) Contamos os mortos, em conferências de imprensa. Os recuperados, os infectados. Os números. E, curiosamente, num tempo em que a nossa vida parece meia suspensa - sem o barulho e o contacto de outros tempos, sem desvarios nem danças, com um medo de que tudo entre em colapso, o dinheiro, o emprego, a saúde, com todos à espera do fim disto -, a voragem acentuou-se, os dados, as notícias, os estudos. A pandemia consumiu tudo. O mundo inteiro engolido. O pequeno vírus microscópico engoliu-nos. As notícias são a pandemia, as conversas são a pandemia, os medos são a pandemia, as regras são a pandemia, as transgressões são a pandemia, e tentamos acompanhar tudo como se estivéssemos a ver, às apalpadelas no escuro. (...) Vou menos aos restaurantes, aos cafés, às esplanadas, vou menos ao cabeleireiro, às lojas, não vou a bares, não falo com bêbados com oráculos enigmáticos, não conheço estranhos que me intrigam, não danço, ando menos de transportes públicos, convivo muito menos com to...