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A mostrar mensagens de outubro, 2020

Suspended Pragmatism

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 (...) Contamos os mortos, em conferências de imprensa. Os recuperados, os infectados. Os números. E, curiosamente, num tempo em que a nossa vida parece meia suspensa - sem o barulho e o contacto de outros tempos, sem desvarios nem danças, com um medo de que tudo entre em colapso, o dinheiro, o emprego, a saúde, com todos à espera do fim disto -, a voragem acentuou-se, os dados, as notícias, os estudos. A pandemia consumiu tudo. O mundo inteiro engolido. O pequeno vírus microscópico engoliu-nos. As notícias são a pandemia, as conversas são a pandemia, os medos são a pandemia, as regras são a pandemia, as transgressões são a pandemia, e tentamos acompanhar tudo como se estivéssemos a ver, às apalpadelas no escuro. (...) Vou menos aos restaurantes, aos cafés, às esplanadas, vou menos ao cabeleireiro, às lojas, não vou a bares, não falo com bêbados com oráculos enigmáticos, não conheço estranhos que me intrigam, não danço, ando menos de transportes públicos, convivo muito menos com to...

Contagious Madness

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Falta de ar nos gemidos dos "ais" A febre, seus fantasmas, seus terrores Sem pressa, passo a passo, mais e mais A besta avança pelos corredores O médico caminha com cautela Estuda as artimanhas do inimigo A enfermeira brava vence o medo Pouco lhe importa a extensão do perigo O mundo está zerando ao Deus dará O povo não se entrega é cabra cega É lá e cá sem lei, sem mais aviso Só sei que é preciso acreditar Fazemos todos parte desta história Mesmo que os tontos blefem com a morte Num jogo de verdades e mentiras Um jogo duplo de azar e sorte A ciência abre as suas asas A esperança à frente como um guia Com São João na reza, a pajelança A intervenção de Xangô na magia Neste canto aqui da poesia Casa da fantasia e da razão Abre-se a porta e entra um novo dia Pela janela a dentro um coração A voz de um bardo a bordo da alvorada O sol da aurora secando o pulmão Ano passado se eu morri na estrada Vai que esse ano não morro mais não É pra montar no lombo da toada Desembarcar do trem ...

Calamity Jay

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They used to call her a trigger happy bitch grippin’ one no no two ivory handled revolvers gettin’ buck-rowdy like Wild Bill lickin’ up the last drops of red liquor in saloons and this gal she got the sepia skin she ain’t beauty queen she ain’t Oakley girl with a western show like a damned act grinnin’ at Cody blowin’ kisses like magic and tuhdah no sir-not her-this gal-she got some dirt on her boots got some grit in her teeth and she patrols the whole frontier peelin’ back scabs from her tiny bruised knuckles before she cracks them pop poppoppop ohhh right on the nose goddamn you motherfuckers don’t tussle with her fringes don’t rub trouble on her coonskin cap she will clench her six shooters in her fists like oooh-yeahyeahyeah-uhuh and squishy explosions of heads splatter when she squeezes out that bangbangbang it makes her grin like shit her mama said she used to be the sweetest thing martha jane pink cheeks blonde curls yes sir the cutest shin kickin’ spit spatterin’ lil’ lady of t...

Survival Tide

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When you and I, like all things kind or cruel, The garnered days and light evasive hours, Are gone again to be a part of flowers And tears and tides, in life's divine renewal, If some grey eve to certain eyes should wear A deeper radiance than mere light can give, Some silent page abruptly flush and live, May it not be that you and I are there? Survival - Edith Wharton Not, I’ll not, carrion comfort, Despair, not feast on thee; Not untwist — slack they may be — these last strands of man In me ór, most weary, cry I can no more. I can; Can something, hope, wish day come, not choose not to be. But ah, but O thou terrible, why wouldst thou rude on me Thy wring-world right foot rock? lay a lionlimb against me? scan With darksome devouring eyes my bruisèd bones? and fan, O in turns of tempest, me heaped there; me frantic to avoid thee and flee? Why? That my chaff might fly; my grain lie, sheer and clear. Nay in all that toil, that coil, since (seems) I kissed the rod, Hand rather, my hea...

Dedans Dehors

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Que l’apparition du visage dans le miroir soit accueillie par une mimique de jubilation, loin de mettre en mouvement, comme le pense Lacan, la dialectique de l’identification à l’autre, marque en fait le point culminant d’un long processus de projection dont le but est de constituer dans sa différence le visage de l’autre auquel le sujet s’est d’abord identifié. « L’assomption jubilatoire » acquiert alors une triple signification : elle est achèvement de la coupure primordiale du dedans et de dehors ; elle est dépassement de l’inquiétante étrangeté primitivement liée à la perception du double ; elle est confirmation du primat absolu de cette même perception. (...)  L’opposition corps réel – corps imaginaire ne renvoie pas à des entités séparées mais à deux fonctions qui correspondent à l’absence et à la présence d’un imaginaire que médiatise la projection. Par conséquent, ce sont deux manières d’appréhender comme une et multiple, la même réalité soustraite au dualisme psyché-soma....

Averno

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Nos fins do outono uma rapariga deitou fogo a um trigal. O outono fora muito seco; o campo ardeu como palha. Depois não sobrou nada. Se o atravessávamos, não víamos nada. Nada havia para colher, para cheirar. Os cavalos não compreendem – Onde está o campo, parecem dizer. Como tu ou eu a perguntar onde está a nossa casa. Ninguém sabe responder-lhes. Não sobra nada; resta-nos esperar, a bem do lavrador, que o seguro pague. É como perder um ano de vida. Em que perderias um ano da tua vida? Mais tarde regressas ao velho lugar – só restam cinzas: negrume e vazio. Pensas: como pude viver aqui? Mas na altura era diferente, mesmo no último verão. A terra agia como se nada de mal pudesse acontecer-lhe. Um único fósforo foi quanto bastou. Mas no momento certo – teve de ser no momento certo. O campo crestado, seco – a morte já a postos por assim dizer. Paisagem #3* - Louise Glück *Terceira parte do poema “Landscape”, de Averno (2006), traduzido por Rui Pires Cabral.  Publicado no n.º 12 da re...