Nonato
«Conta-se que nasci nos braços da surdez! Nos primeiros tempos da minha infância não ouvia o que me diziam. Quando, com as maiores dificuldades, conseguiram ensinar-me a falar, só depois de ter lido numa folha de papel o que alguém escrevia é que eu podia comunicar, por minha vez, o fio dos meus raciocínios. Um dia, um dia nefasto, crescia eu em beleza e inocência e toda a gente admirava a inteligência e a bondade do divino adolescente. Muitas consciências se ruborizavam ao contemplarem aqueles traços límpidos onde a sua alma reinava. Só se aproximavam dele com veneração, porque notavam nos seus olhos o olhar de um anjo. Mas não, eu sabia de resto que as rosas felizes da adolescência não iriam florir perpetuamente, entrançadas em grinaldas caprichosas, na sua fronte modesta e nobre, que todas as mães beijavam freneticamente. Começava a parecer-me que o universo, com a sua abóbada estrelada de globos impassíveis e irritantes, talvez não fosse aquilo que eu sonhara de mais grandioso. Um ...