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A mostrar mensagens de março, 2018

Triptych Address

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A poesia é o signo extremado. Estremecendo, plástica, a palavra rasga. Contra a opacidade dos dias, a cristalização da frase, límpida, com seus sintagmas oferecendo ao lado de lá da tela a história original de um mundo. Estremecendo, o leitor sobrevive e insiste em reler passagens que, de algum modo, o penetram por imagens, flashes. Assim, contra os actos não há argumentos – e a poesia, se construída em verdade, produz novas formas de perceber as idades de que é feita, afinal, a nossa vida: metro, verso, estrofe, cadência rítmica, corpo a corpo, combate entre vida e morte. Extremidades da linha de fogo. ARTE POÉTICA E NÃO Quando não esperas nada não esperas nada Quando não esperas nada tudo acontece Quando não esperas nada o nada é certo Quando não esperas nada das leis do verso Quando não esperas nada porque esperavas? Quando não esperas nada lembras fantasmas Quando não esperas nada o som concreto do poema cresce e tu recebes lição de um nada em tudo ...

Cold Golgotha

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E por isso pensas, naquele preciso momento, nas coisas que acontecem. À volta do idiota acontecem tantas coisas...   E gostavas de ser um demiurgo sábio para dosear ao longo do tempo uma tal avalanche de emoções.   Navegação complicada no mar agitado do palavreado infinito que abana o barco, que o reduz a barco de papel.   E queres pôr tanta coisa no sítio certo, que ocorrem demasiadas coisas num curto espaço de tempo e afogas-te, é claro que te afogas.   Em cada gota, no contorno, no perfil de cada gota, se olhares com atenção, viajam o arco-íris e o eclipse solar. [...] Continuei a opinar como se opinar fosse uma obra de alvenaria, Assumindo que tudo é composto de opiniões e que, acrescentando opiniões geramos matéria oca.   O frio manifesta-se no frio e não há palavras para essa sensação. Mas temos o silêncio como A GRANDE ACTIVIDADE: calar como o verbo. Pág.47/9 O problema quando nos emocionamos é que não nos questiona...

naturally unconfident

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A Anunciação (c. 1430-34), por Álvaro Pires de Évora. Colecção MNAA Eu canto porque o instante existe e a minha vida está completa. Não sou alegre nem sou triste: sou poeta. Irmão das coisas fugidias, não sinto gozo nem tormento. Atravesso noites e dias no vento. Se desmorono ou se edifico, se permaneço ou me desfaço, — não sei, não sei. Não sei se fico ou passo. Sei que canto. E a canção é tudo. Tem sangue eterno a asa ritmada. E um dia sei que estarei mudo: — mais nada. Motivo Eu não tinha este rosto de hoje, assim calmo, assim triste, assim magro, nem estes olhos tão vazios, nem o lábio amargo. Eu não tinha estas mãos sem força, tão paradas e frias e mortas; eu não tinha este coração que nem se mostra. Eu não dei por esta mudança, tão simples, tão certa, tão fácil: Em que espelho ficou perdida a minha face? Retrato Deixai-me nascer de novo, nunca mais em terra estranha, mas no meio do meu povo, com meu céu, minha montanha, me...

Oxalá

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Exprimo. Aprumo estética experimental              (poética)              ciência qual mimo                         cimo da paciência apetência de experiências              (várias) experimentando sem perimir não / perimétrica poesia experimental               experimento experimentando               poesia experimental. Experimentando experimento Sempre que o dia se debruça sobre a maré de bruços a escuridão invade va dia como a noite ... A aura da saudade idade do tempo envolve o vazio. No cio. O auge das sensação encoberta descobr...

круг

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Laugh, and the world laughs with you; Weep, and you weep alone; For the sad old earth must borrow its mirth, But has trouble enough of its own. Sing, and the hills will answer; Sigh, it is lost on the air; The echoes bound to a joyful sound, But shrink from voicing care. Rejoice, and men will seek you; Grieve, and they turn and go; They want full measure of all your pleasure, But they do not need your woe. Be glad, and your friends are many; Be sad, and you lose them all,— There are none to decline your nectared wine, But alone you must drink life’s gall. Feast, and your halls are crowded; Fast, and the world goes by. Succeed and give, and it helps you live, But no man can help you die. There is room in the halls of pleasure For a large and lordly train, But one by one we must all file on Through the narrow aisles of pain. Solitude by Ella Wheeler Wilcox «Mas por que há-de um homem pretender encontrar a solidão? Não andamos todos a fugir da ...

Cosmo Politics

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Vamos pela tarde à procura de deus. Depois do dia ter falhado com as suas promessas o que nos sobra é tudo o que vai daqui até ao mar. Transporto no coração a contagem dos passos e na cabeça a língua que se prende por engano ao céu da boca. Será sempre preciso navegar em terra, agarrar o que resta pela cintura e disfarçar o corpo nu entre os rochedos. Cada palavra é um remo, cada abraço perdido uma bóia a menos no costado. Os aparelhos da fala excrementos das gaivotas. A tarde recolheu os últimos sinais da divindade. Avançamos à procura da água prometida. Confundimos as ondas com os limos da garganta, as cavernas com as muitas moradas, o destino com mais um precipício antes da noite. Terra Navegável, de Armando Silva Carvalho in "A sombra do mar", Assírio & Alvim, 2015, p. 50. "O provincianismo é a doença em que se confunde o lugar onde se vive com o centro do mundo. O provincianismo é achar que o mundo tem um centro. O provincianism...

Asphalt Desire

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“Mankind’s greatest achievements have come about by talking, and its greatest failures by not talking. It doesn’t have to be like this. Our greatest hopes could become reality in the future. With the technology at our disposal, the possibilities are unbounded. All we need to do is make sure we keep talking.” “It is no good getting furious if you get stuck. What I do is keep thinking about the problem but work on something else. Sometimes it is years before I see the way forward. In the case of information loss and black holes, it was 29 years.” Stephen William Hawking (Oxford, 8 de janeiro de 1942 – Cambridge, 14 de março de 2018) “Os nossos problemas são basicamente “internos” e têm sobretudo que ver com as profundas desigualdades de rendimento — entre classes e entre homens e mulheres —, o atraso social e económico, as assimetrias regionais, a fragilidade das infra-estruturas e serviços públicos. Ao que se soma, hoje, a explosão brutal de um fenómeno, a corrupção, q...

Sin Mordaza

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Albert Camus associa a moral, que considera “ciência do bem e do mal”, a uma teoria da ação que fixa os deveres de quem age e impõe uma preocupação com a sua conduta. Conferia-lhe uma profunda dimensão política, uma vez que quem se confronta com o problema da escolha o faz em sociedade, funcionando as suas atitudes como exemplo tendo repercussões no coletivo e no modo como este avalia o que está certo e o que está errado. É neste sentido que penso existir neste caso uma dupla questão de moral a considerar. A primeira a propósito do episódio em si, e a segunda sobre o modo como a polémica suscitada é exemplo de uma prática do trabalho jornalístico que se tem vindo a instalar e merece ser encarada de forma crítica. Rui Bebiano O uso de rótulos geracionais comporta riscos desnecessários. Cria uma ilusão de homogeneidade onde ela não existe. Obscurece processos de exclusão social que não devemos perder de vista. O baptismo de gerações é muito comum. Vive de generalizações ...

Keine Schande

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À beira do caos porque fora da razão dos mercados, Tu estás longe da terra que te serviu de berço. O que buscou a Tua alma e encontrou rejeita-lo Tu agora, vale menos do que sucata. Nua como o devedor no pelourinho sofre aquela terra a quem dizer que devias era para Ti tão natural como falar. À pobreza condenada a terra da sofisticação e do requinte que adornam os museus: espólio que está à Tua cura. Os que com a força das armas arrasaram o país de ilhas abençoado levavam com a farda Hölderlin na mochila. País a custo tolerado cujos coronéis toleraste outrora na Tua Aliança. Terra sem direitos a quem o poder do dogma aperta o cinto mais e mais. Trajada de negro, Antígona desafia-te e no país inteiro o povo cujo hóspede foste veste-se de luto. Contudo os sósias de Creso foram em procissão entesourar fora de portas tudo o que tem a luz do ouro. Bebe duma vez, bebe! grita a claque dos comissários, mas Sócrates devolve-Te, irado, a taça cheia até à borda. Os deuses ...

Dinner Party

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"I believe in art that is connected to real human feeling, that extends itself beyond the limits of the art world to embrace all people who are striving for alternatives in an increasingly dehumanized world. I am trying to make art that relates to the deepest and most mythic concerns of human kind and I believe that, at this moment of history, feminism is humanism." "Because we are denied knowledge of our history, we are deprived of standing upon each other's shoulders and building upon each other's hard earned accomplishments. Instead we are condemned to repeat what others have done before us and thus we continually reinvent the wheel. The goal of The Dinner Party is to break this cycle." Judy Chicago “There was a time when you were not a slave, remember that. You walked alone, full of laughter, you bathed bare-bellied. You say you have lost all recollection of it, remember. The wild roses flower in the woods. Your hand is torn on the b...

hailstones

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Seamus Heaney by Tai-Shan Schierenberg - oil on canvas, 2004 (967 mm x 915 mm) My cheek was hit and hit: sudden hailstones pelted and bounced on the road. When it cleared again something whipped and knowledgeable had withdrawn and left me there with my chances. I made a small hard ball of burning water running from my hand just as I make this now out of the melt of the real thing smarting into its absence. To be reckoned with, all the same, those brats of showers. The way they refused permission, rattling the classroom window like a ruler across the knuckles, the way they were perfect first and then in no time dirty slush. Thomas Traherne had his orient wheat for proof and wonder but for us, it was the sting of the hailstones and the unstingable hands of Eddie Diamond foraging in the nettles. Nipple and hive, bite lumps, small acorns of the almost pleasurable intimated and disallowed when the shower ended and everything said wait. ...

Desvão

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Detesto toda a psicologia. Pelo menos tanto como o homem de trabalho e os escritores movidos a bons sentimentos, que o querem entreter ou melhorar ao módico preço dos direitos de autor. Para me sustentar tenho todas as loiras do mundo. E não são poucas. De ambos os sexos e qualquer côr de cabelo. É o que basta. A somar ao jogo. O jogo de sonhar acordado. Sou o chulo vigil dos pesadelos das mães. As nossas e as delas. A fera com mais inteligência que moral. Uma inteligência manipuladora. O abismo brilhante. Um falo que fosse vaso. Disputo corridas sem sair do lugar e, por isso, sou sempre o primeiro a alcançar a meta riscada no chão com o giz líquido do meu sémen. Os outros chegam estafados. Caem de borco. Matam a sede na fonte desse giz. E pagam o pecado. A minha religião indulgencia-me sempre. Sou o Papa Negro das Noites Brancas. O Papa Branco das Noites Negras. Sou cinzento. Como as balanças que aferem o peso para aferir o custo. Estou afinado. Não ranjo. Não sangro. Não choro. Não...