Cold Golgotha
E por isso pensas, naquele preciso momento, nas coisas que acontecem. À volta do idiota acontecem tantas coisas...
E gostavas de ser um demiurgo sábio para dosear ao longo do tempo uma tal avalanche de emoções.
Navegação complicada no mar agitado do palavreado infinito que abana o barco, que o reduz a barco de papel.
E queres pôr tanta coisa no sítio certo, que ocorrem demasiadas coisas num curto espaço de tempo e afogas-te, é claro que te afogas.
Em cada gota, no contorno, no perfil de cada gota, se olhares com atenção, viajam o arco-íris e o eclipse solar.
[...]
Continuei a opinar como se opinar fosse uma obra de alvenaria, Assumindo que tudo é composto de opiniões e que, acrescentando opiniões geramos matéria
oca.
O frio manifesta-se no frio e não há palavras para essa sensação. Mas temos o silêncio como A GRANDE ACTIVIDADE: calar como o verbo.
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O problema quando nos emocionamos é que não nos questionamos.
Emocionamo-nos e elevamos aquilo que nos emocionou a algo sublime.
No entanto, os momentos em que estamos emocionados são piores para vermos as coisas tal como são.
Emocionamo-nos e estamos no nosso pior momento de lucidez, inclusive de sensibilidade.
Dito de outra forma, não creio que a emoção e a sensibilidade tenham relação com a arte.
E imagino o que ainda está para vir...
Passaremos rapidamente da confusão à ocultação: ocultarão os produtos da vista das pessoas.
Entraremos numa loja pela simples solidão, prisioneiros do desejo e da necessidade de diálogo, e compraremos o que nos digam que temos de comprar, em sacos que não reflictam de todo o que há no interior.
Não voltaremos a entrar numa loja para algo tão baixo e modesto como comprar algo de que necessitamos. Entraremos numa loja para EXISTIR.
Para viver um momento da nossa vida e ter uma experiência num ambiente criado por astutos ou por loucos. Espaços protegidos, onde a temperatura está o ano inteiro a 22 graus e onde não se grita. E ninguém ri à gargalhada e não se produzem acções incorrectas. Por exemplo, ninguém cospe para o chão. Ir às comprar já não será um passatempo.
Ir às compras, entrar num estabelecimento, representará dentro de pouco tempo a ideia hideggeriana de VERDADE MANIFESTA EM ACÇÃO E NO ACONTECER DE VERDADE.
Comprei Uma Pá no Ikea para Cavar a Minha Sepultura e Outras Peças - Rodrigo García
Livrinhos de Teatro 102, Artistas Unidos / Livros Cotovia | 2016
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