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A mostrar mensagens de janeiro, 2017

Fallen Angels

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Jean-Michel Basquiat -  Untitled (Fallen Angel), 1981 Na manhã do nosso regresso a Jerusalém, o Yehezkel fez algo que jamais esquecerei. Pôs-se em cima de um escadote para chegar a um enorme armário e pegar num grande baú do qual tirou um velho uniforme de guarda, já gasto e amarrotado. Também pegou num velho chapéu de guarda,o kolpak , que enfiou na na cabeça do neto. O chapéu era tão grande que quase lhe tapava os olhos. O próprio avô vestiu o uniforme por cima do pijama. Durante toda aquela manhã, até à hora da partida, os dois agitaram o apartamento com simulações de batalhas e manobras. Disparavam furtivamente um contra o outro, entrincheirados atrás dos móveis. O rosto do Yair irradiava uma alegria desenfreada à medida que descobria pela primeira vez os prazeres do poder, e o velho soldado raso obedecia a todas as ordens com uma devoção constante. Naquela última manhã da nossa derradeira visita a Holon, o Yehezkel era um velho feliz. Senti intensamente ...

Calm Fluxus

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The point of my work is to show that culture and education aren't simply hobbies or minor influences. They are hugely important in the affirmation of differences between groups and social classes and in the reproduction of those differences. Pierre Bourdieu Let's talk of a system that transforms all the social organisms into a work of art, in which the entire process of work is included... something in which the principle of production and consumption takes on a form of quality. It's a Gigantic project. A total work of art is only possible in the context of the whole of society. Everyone will be a necessary co-creator of a social architecture, and, so long as anyone cannot participate, the ideal form of democracy has not been reached. Whether people are artists, assemblers of machines or nurses, it is a matter of participating in the whole. Joseph Beuys 'Style robs you of life, it is violent - even to others.' Helmut Newton ...

Bourgeoise Myths

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Retrato de D. Sebastião , c. 1600 Desde que nos deixaste o tempo nunca mais se transformou Não rodou mais para a festa não irrompeu Em labareda ou nuvem no coração de ninguém. A mudança fez-se vazio repetido E o a vir a mesma afirmação da falta. Depois o tempo nunca mais se abeirou da promessa Nem se cumpriu E a espera é não acontecer — fosse abertura — E a saudade é tudo ser igual. in "Explicação das Árvores e de Outros Animais" Amo-te nesta ideia nocturna da luz nas mãos E quero cair em desuso Fundir-me completamente. Esperar o clarão da tua vinda, a estrela, o teu anjo Os focos celestes que a candeia humana não iguala Que os olhos da pessoa amada não fazem esquecer. Amo tão grandemente a ideia do teu rosto que penso ver-te Voltado para mim Inclinado como a criança que quer voltar ao chão. Amo-te na carne que tomaste do chão que aplaino Com as mãos Com as palavras que escrevo e apago Na areia, no cérebro. Amo-te com o cérebro em feri...

Tristesse Souriant

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«A vida é agradável. A vida é boa. O simples processo segundo o qual decorre é satisfatório. Pensemos no cidadão comum. Trata-se de alguém que gosta de comer e dormir. Gosta de sentir o cheiro fresco do ar e de descer o Strand com um passo apressado. No campo, há um galo empoleirado num portão; há uma égua galopando num prado. Há sempre algo que tem de ser feito a seguir. À segunda segue-se a terça, depois a quarta e a quinta. Cada dia espalha a mesma onda de bem-estar, repete a mesma curva de ritmo; cobre a areia fresca com um arrepio, ou constrói uma pequena teia de espuma. E é assim que o ser começa a deixar crescer anéis; a identidade torna-se mais robusta. Aquilo que antes era furtivo como um pequeno grão lançado ao ar e soprado de um lado para o outro pelas rajadas fortes da vida, passa agora a ser atirado de forma metódica numa direcção precisa, obedecendo a um objectivo - pelo menos é o que parece.» «Meu Deus, que agradável! Meu Deus, que bom! Como é tolerável a vida...

Lovely Nature

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Creio nos anjos que andam pelo mundo, Creio na deusa com olhos de diamantes, Creio em amores lunares com piano ao fundo, Creio nas lendas, nas fadas, nos atlantes; Creio num engenho que falta mais fecundo De harmonizar as partes dissonantes, Creio que tudo é eterno num segundo, Creio num céu futuro que houve dantes, Creio nos deuses de um astral mais puro, Na flor humilde que se encosta ao muro, Creio na carne que enfeitiça o além, Creio no incrível, nas coisas assombrosas, Na ocupação do mundo pelas rosas, Creio que o amor tem asas de ouro. amém. Nada a fazer amor, eu sou do bando. Impermanente das aves friorentas; E nos galhos dos anos desbotando Já as folhas me ofuscam macilentas; E vou com as andorinhas. Até quando? À vida breve não perguntes: cruentas Rugas me humilham. Não mais em estilo brando Ave estroina serei em mãos sedentas. Pensa-me eterna que o eterno gera Quem na amada o conjura. Além, mais alto, Em ileso beiral, aí espera: Andorinha e...

Golden Iguana

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How calmly does the olive branch Observe the sky begin to blanch Without a cry, without a prayer With no betrayal of despair Some time while light obscures the tree The zenith of its life will be Gone past forever And from thence A second history will commence A chronicle no longer gold A bargaining with mist and mold And finally the broken stem The plummeting to earth, and then An intercourse not well designed For beings of a golden kind Whose native green must arch above The earth's obscene corrupting love And still the ripe fruit and the branch Observe the sky begin to blanch Without a cry, without a prayer With no betrayal of despair Oh courage! Could you not as well Select a second place to dwell Not only in that golden tree But in the frightened heart of me? The Night of the Iguana

Retro Liquid

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“One thing which even the most seasoned and discerning masters of the art of choice do not and cannot choose, is the society to be born into - and so we are all in travel, whether we like it or not. We have not been asked about our feelings anyway. Thrown into a vast open sea with no navigation charts and all the marker buoys sunk and barely visible, we have only two choices left: we may rejoice in the breath-taking vistas of new discoveries - or we may tremble out of fear of drowning. One option not really realistic is to claim sanctuary in a safe harbour; one could bet that what seems to be a tranquil haven today will be soon modernized, and a theme park, amusement promenade or crowded marina will replace the sedate boat sheds. The third option not thus being available, which of the two other options will be chosen or become the lot of the sailor depends in no small measure on the ship's quality and the navigation skills of the sailors. Not all ships are seaworthy, however. ...

Opium

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Tenho a posição, que é eminentemente subjectiva, ou seja, cultural, de que a democracia, entendida como uma conjugação entre a vontade popular, a lei e o direito, e o melhorismo social, é a única forma que temos de viver razoavelmente. Tenho também a posição de que se trata de uma opção cultural, uma escolha que contraria tudo, a natureza, todas as variantes de darwinismo social, a sociobiologia, o Id do dr. Freud, a seta da história de Marx e as múltiplas variantes actuais da TINA ( “there is no alternative” ). É, digamos, uma suspensão volitiva, assumida colectivamente, de que é melhor viver assim do que de qualquer outra maneira. Por ser apenas isto é de uma fragilidade extrema, é a excepção à regra, uma violação da entropia, que talvez por isso dure pouco ou seja sempre minoritária, já que imperfeita é certamente. Não produz uma qualquer teleologia da história, nem emana dela, mas também não é uma utopia, porque circunstancialmente na história existiu e existe por mera vonta...

mesenterium

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segreda-me a canção dos dias sem que nos ouça a noite terrível e deixa que dance em mim a voz, a voz azul que é o lugar onde o mundo não pára de nascer. segreda-me o teu nome, agora, e farei de nós o amor, a constelação, o sonho de uma estação sem morte. SEGREDO e na palma da tua mão busco ternura sem contar meses, anos, dias, sem saber dizer se já chorei por inteiro o suficiente para não voltar a perder-te NA PALMA DA TUA MÃO por ti deitei o meu corpo aomar sem cuidar que a maré me esquecesse porti aprendi como as coisas se tocam como o trigo entende o vento e a terra          como amanhecem as crianças sobre as mães por ti dormi no sobressalto dos vales entre sossegos mudos e noites espessas por ti toquei a gravidez das nuvens toquei os filhos semeados no inverno           toquei a mulher que espanta o frio e imaginei que me ouvisses na distância que me lembrasses ameio do mês branco ...

hummeri

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Under sleepy branches a strange light shines, in the forest a magic path comes from nowhere, leads nowhere. My shadow fled, I am without body. disolved in moonlight. My step remains suspended in mid-air, My hand touches emptiness. MOONLIGHT IN THE FOREST - Aaro Hellakoski (1893-1952) The loveliest poem is born when you are close to someone, when tenderness, simple and boundless, without questions flows from one to the other. You do not forget the loveliest poem. It is stamped on your forehead, eyes, lips and heart, stamped for lovers to read, for lovers to surrender. LOVELIEST POEM - Arvo Turtianen (1904-1980) I will show you a way that I have travelled. If you come If you come back some day searching for me do you see how everything shifts a little every moment and becomes less pretentious and more primitive (like pictures drawn by children or early forms of life: the soul's alphabet) you will come to a warm region it is...

Oreo Sputnik

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Decidiu que o melhor a fazer era ir-se embora. Mas, por uma qualquer razão que não lograva descortinar, não conseguia deixar a cidade. Arranjou uma série de desculpas plausíveis. Já pagara um mês de renda, comprara a assinatura para o festival de música e alugara o seu apartamento de Paris durante o verão. Não podia levantar-se e ir-se embora assim sem mais nem menos, dizia para consigo mesma. E, além disso, ainda não acontecera nada. Não sofrera nenhum dano concreto, pois não? Ninguém a tratara mal. Provavelmente não passava de um excesso de susceptibilidade da sua parte, convenceu-se ela. Uma noite, cerca de duas semanas depois de ter começado a viver naquela cidade, foi jantar como de costume a um pequeno restaurante do bairro. Depois, para variar, decidiu apanhar ar e deu um grande passeio. Perdida nos seus pensamentos, deambulou ao acaso pelas ruas da cidade. Sem se dar conta, foi ter à entrada do parque de diversões, aquele onde havia a grande roda. O ar estava cheio d...

Hiperdulia

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Ficar quieta é técnica que já aplico com rigor, e no preciso sítio em que pulsa paraliso tudo, quem está morto livre está. Creio que começou quando cedeu o avô. Alguém disse: afinal o coração não aguentou. Eu pensei: mais vale declinar o abalo. Mas também não cheguei nessa altura até ao fim. Escangalhei-me na novena aos degredados filhos de Eva. Iniciei-me então nos barbitúricos e hoje passo bem melhor. Às vezes é um jogo, em que recorro ao coito antes de apanhada, e se esgoto essa via, dedico-me à mimese, diluo-me com os objectos, tudo me toca mas nada dá por mim, tão imóvel que me ignora a dor, não há como acordar um corpo mudo. Por exemplo agora que não veio o homem, podia ter-me ferido ou saído a buscar outro, e perdido; mas pratico com vantagem a apneia e a domesticidade. É pena que me esqueça tanta coisa; foi sorte saber da lamela - eia, pois, advogada nossa - dormir serena. COPING De qualquer forma sei como encontrar quem alivie. Nem o problema está em que não seja...