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A poesia é o signo extremado. Estremecendo, plástica, a palavra rasga. Contra a opacidade dos dias, a cristalização da frase, límpida, com seus sintagmas oferecendo ao lado de lá da tela a história original de um mundo. Estremecendo, o leitor sobrevive e insiste em reler passagens que, de algum modo, o penetram por imagens, flashes. Assim, contra os actos não há argumentos – e a poesia, se construída em verdade, produz novas formas de perceber as idades de que é feita, afinal, a nossa vida: metro, verso, estrofe, cadência rítmica, corpo a corpo, combate entre vida e morte. Extremidades da linha de fogo.
ARTE POÉTICA E NÃO
Quando não esperas nada
não esperas nada
Quando não esperas nada
tudo acontece
Quando não esperas nada
o nada é certo
Quando não esperas nada
das leis do verso
Quando não esperas nada
porque esperavas?
Quando não esperas nada
lembras fantasmas
Quando não esperas nada
o som concreto
do poema cresce e tu recebes
lição de um nada em tudo
e recomeças
POESIA
Escreves quando as fábulas escavas.
Falas da morte no poema neste tempo
mercantil e de imagens rápidas.
Olhares oblíquos foi quanto viveste?
E agora, quando lês, consegues separar
o lido na página do vivido onde encerraste
a verdade íntima dos factos? Se somos
o que fazemos, como negar que és
ficção cinematográfica nos outros?
Para ti tem o texto a posse do que foste
mas a poesia não anula a dor e os actos
aos poucos sobem aos olhos Escombros
no teu íntimo mar suspenso e vasto
(num escafandro desces aos desastres)
AO LEITOR
António Carlos Cortez in Linha de Fogo, Licorne, 2012
Leva-me outra vez para a mesma mesa
onde fico de costas para a janela
onde o tempo me esquece
onde nada me toca
o teu gesto protege
o teu corpo separa
a água que me dás
interrompe a memória
Só à porta da rua
o tempo reaparece.
Restaurante
em “A Oriente”, Editorial Presença, colecção Forma – 38, Lisboa: 1998, p.12Aceito morrer em breve
mas não irei ter contigo
às salinas escuras
por onde tens andado
ficando à minha espera.
Também não quero o mar
nem a montanha
locais de iniciação
Quero um regato ameno
de água fina correndo
por entre arbustos rasteiros.
E então ao longe
a figueira
de folhas enganadoras
com uma sombra que oculta
o gesto da maldição.
Abdicação
in “Canções do Rio Profundo”, Asa Editores, Porto, 2002Diz:
diz o nome
escolhe as sílabas
que não perturbem ninguém
indica as letras
com a sua marca de fogo
as rosas
de pétalas arrancadas
as cinzas oferecidas
em breve resumirão
essa rara existência
O Nome
in “Poemas Com Endereço”, Editora Mariposa Azual, Lisboa, 2015Yvette K. Centeno
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| Calvary by Maerten van Heemskerck (Painting, Oil on canvas mounted on panel, 100.7x86.3 cm | Between 1545 and 1550 | Hermitage Colection) |
Subi para o palco
e uma luz de imensa crueldade
incidiu-me nos olhos.
Por momentos estive tentado
a fechar as pálpebras
ou a fugir
Miguel Rovisco

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