Mr. (Scr)Duffy
“Mr. Duffy não suportava nem a desordem física nem a mental. Um médico da Idade Média considerá-lo-ia um melancólico. No seu rosto podia ler-se a história completa da sua vida, e a pele possuía a mesma tonalidade acastanhada das casas de Dublin. Na grande e volumosa cabeça crescia cabelo preto, e o bigode escuro não conseguia disfarçar completamente a boca desagradável. As maçãs do rosto, muito desenvolvidas, emprestavam ao semblante um certo carácter, mas o olhar não tinha dureza, os olhos fitavam o mundo por baixo das sobrancelhas escuras, e davam a impressão de que estavam sempre abertos para encontrar um instinto de redenção nos outros, mas muitas vezes ficavam desapontados. Vivia a certa distância do seu corpo, olhando para os seus próprios actos com olhares de esguelha. Possuía um estranho «hábito autobiográfico», que o fazia compor, de tempos a tempos, uma curta sentença sobre si mesmo, contendo o sujeito na terceira pessoa e o predicado no pretérito. Nunca dava esmolas a pobres e caminhava com firmeza. […]
[…] Não tinha nem companheiros, nem amigos, nem crença, nem igreja. Vivia a sua vida espiritual sem comunhão com os outros, visitando os seus parentes uma vez por ano, no Natal, e acompanhando-os ao cemitério, quando morriam. Cumpria com esses dois deveres, mas nada mais concedia às outras convenções que regulam a vida cívica. Admitia pensar que, em certas condições, seria capaz de roubar o Banco onde trabalhava, mas como essas condições nunca apareciam, a sua vida decorria monótona e sem história.”
James Joyce – Gente de Dublin 2011 (da colecção Não Nobel, ed. Levoir / Público; trad. B. de Carvalho / Nova Vega)
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