Veil Unweil
"Assim, nesse antigo e maravilhoso poema [Ilíada] aparece já o mal essencial da humanidade, a substituição dos fins pelos meios. Ora a guerra aparece em primeiro plano, ora a procura da riqueza, ora a produção, mas o mal continua o mesmo. Os moralistas vulgares queixam-se de que o homem é arrastado pelo seu interesse pessoal; oxalá fosse isso! O interesse é um princípio de acção egoísta, mas limitado, razoável, que não pode gerar males ilimitados. A lei de todas as actividades que dominam a existência social, é, ao contrário, exceptuando-se o caso das sociedades primitivas, que cada um sacrifique a vida humana, em si mesmo e em outrem, por coisas que não passam de meios de viver. Esse sacrifício reveste-se de diversas formas, mas tudo se resume na questão do poder.
O poder, por definição, não passa de um meio; ou, mais exactamente, possuir um poder consiste simplesmente em possuir meios de acção que ultrapassam a força tão restrita de que um indivíduo dispõe sozinho. Mas a procura do poder, pelo fato de ser essencialmente impotente para agarrar seu objecto, exclui toda consideração de fim, e chega, por uma inversão inevitável, a tomar o lugar de todos os fins. É essa inversão da relação entre o meio e o fim, é essa loucura fundamental que explica tudo o que há de insensato e sangrento no curso da história. A história humana é apenas a história da escravização que torna os homens, tanto opressores quanto oprimidos, simples joguetes dos instrumentos de dominação que eles mesmos fabricaram, rebaixando, assim, a humanidade viva a ser a coisa de coisas inertes."

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