Mensagens

Tabula Rasa

Imagem
«Para ele os objectos não se esgotavam na sua utilidade. Eram portadores de histórias e sonhos. Eram pedaços do seu corpo. Por um lado fazia-me impressão a ausência de leveza, por outro invejava-a. Às tantas contou-me que vivera com uma mulher, há muitos anos, que tinha o hábito de mudar os móveis do lugar. Eu sei, eu sei, toda a gente, de vez em quando, faz isso. Acontece que era todas as segundas-feiras. Em casa eram dias sagrados. Por norma ele acordava com o barulho de móveis a serem arrastados. Ela dizia que precisava de assegurar que a sua semana iria ser diferente. Ele respondia que a mudança era um processo, não um acontecimento, e era interior, não exterior. Enfim, o vulgar. Mas em vão. E foi assim que um deles saiu de casa, provavelmente numa segunda-feira. Há rituais, e cada um tem os seus, em que temos necessidade de acreditar. Aquilo que para uns é confusão, para outros significa ordem. Não existe um sentido comum apreensível por todos. Há quem consiga aceitar d...

Heriscape

Imagem
às vezes, escrevo coisas assim, unicamente para ter o prazer de me reler. saborear o que sobejou da noite, duma realidade qualquer talvez para avaliar o meu próprio lixo e amar-me um pouco mais. outras vezes, modifico essa realidade, emendo-a, sublimo-a, rasgo-a, expulso-a da memória. p. 16 pintava sem cessar, pintava até deixar de pintar, as imagens fixas aborreciam-me, a pintura também. e um dia ofereci o material de pintura e dormi descansado, tinha ludibriado o destino que me haviam preparado. o sexo acordou húmido, angustiado, silencioso. houve silêncios inexplicáveis no sexo e na alma. mas não voltei a pintar. o céu estava sulcado de rostos, túmulos, máscaras de água, inscrições premonitórias. chegara o momento de começar a escrever. perscrutava as nuvens vermelhas, os sóis que gemem e caem com estrondo sobre o peito. já não conseguia sentir, só escrevia p. 27-28 11 de janeiro cada dia que passa escrevo menos, e o pouco que escrevo exige todo o tempo di...

Foot Loose

Imagem
THE INDIFFERENT. Come to the dance with me, come with me, fair one! Dances a feast-day like this may well crown. If thou my sweetheart art not, thou canst be so, But if thou wilt not, we still will dance on. Come to the dance with me, come with me, fair one! Dances a feast-day like this may well crown. THE TENDER. Loved one, without thee, what then would all feast be? Sweet one, without thee, what then were the dance? If thou art still so, all life is one feast. Loved one, without thee, what then would all feasts be? Sweet one, without thee, what then were the dance? THE INDIFFERENT. Let them but love, then, and leave us the dancing! Languishing love cannot bear the glad dance. Let us whirl round in the waltz's gay measure, And let them steal to the dim-lighted wood. Let them but love, then, and leave us the dancing! Languishing love cannot bear the glad dance. THE TENDER. Let them whirl round, then, and leave us to wander! Wand...

Filiko Teras

Imagem
Escuchando en el laúd la nota antigua Uno ve poetas en el pasado pero no asesinos. Ve la ingrávida sustancia incorporada A la calamitosa energía de la historia Y esta confusión no termina de aclararse. Increíbles poetas entre nubes de sangre Salvando a medias la verdad, dejando el resto A la convicción del crimen general Como un error que debe soslayarse. Cómo Consiguió la belleza aislar las rosas, Construir un recluso jardín incorrupto Y dar materia a este cantor eterno. Pero la estúpida crueldad y el martirio No fueron cosas transitorias ni objetos irreales Que pueden apartarse como una falla terrestre, Una fractura en la roca, un paso en falso en el mundo. Aquí están todavía, no en el mito Y a su manera se empeñan en dar música. Las cuerdas siguen sonando en medio de la masacre; La vida corporal de esta madera finamente curvada Es aceptada como un triste conocimiento. El laúd rescata un engaño hasta el fin de los tiempos. "Escuchando el Laúd" i...

Pane Tiqqun

Imagem
«Todos os escritores são vaidosos, egoístas e preguiçosos, e no fundo das suas motivações reside um mistério. Escrever um livro é uma luta horrível e extenuante, como uma longa crise de uma doença dolorosa. Nunca nos entregaríamos a tal coisa se não fôssemos conduzidos por um qualquer demónio ao qual não podemos resistir nem sequer compreender. Tanto quanto sabemos, tal demónio é simplesmente o mesmo instinto que faz um bebé berrar para chamar a atenção. E contudo é também verdade que nada de legível se consegue escrever, a menos que lutemos constantemente para apagar a nossa própria personalidade. A boa prosa é como uma vidraça.» Porque Escrevo e outras histórias - George Orwell (1946) “According to the Tiqqun collective , we have become the innocuous, pliable inhabitants of global urban societies. Even in the absence of any direct compulsion, we choose to do what we are told to do; we allow the management of our bodies, our ideas, our entertainment, and all our imagina...

θερμοπώλιον

Imagem
Estas são as antigas ferramentas: a paciência indecisa e mineral como a minha caveira que apoio agora na palma da mão, o lápis e o papel que foram árvore e conservam ainda vocação vertical de tronco um, e o outro a frescura da seiva, o branco ofuscante dos verões na cal das casas da minha aldeia, nas secas preces das copas. Estas são as temidas ferramentas: as velas dos verbos, a memória e esta mesa que é nave, ninho, mãe em cujo seio dormem o lápis e o papel, a aldeia afundada e a tinta que é sangue de animais marinhos. Estas são as simples ferramentas e este o vento inventado: a tímida tormenta de um alento e as palavras, manchas de voz sobre o papel, faróis de voz no meio do oceano. MANCHAS DE VOZ Há que procurar os passos que daremos e despedaçar o céu dos charcos. O azul de outra voz, o puro ar, a pérola de uma dor bem padecida e a luz animal da alegria. Há que procurar a vida que nos procura, o despedaçado céu dos charcos. O CÉU DOS...

Concerned Enquiry

Imagem
«Wealth was at one period almost the single object of pursuit that presented itself to the gross and uncultivated mind. Various objects will hereafter divide men's attention, the love of liberty, the love of equality, the pursuits of art and the desire of knowledge. These objects will not, as now, be confined to a few, but will gradually be laid open to all. The love of liberty obviously leads to a sentiment of union, and a disposition to sympathize in the concerns of others. The general diffusion of truth will be productive of general improvement; and men will daily approximate towards those views according to which every object will be appreciated at its true value. Add to which, that the improvement of which we speak is public, and not individual. The progress is the progress of all. Each man will find his sentiments of justice and rectitude echoed by the sentiments of his neighbours. Apostasy will be made eminently improbable, because the apostate will incur, not only his...