Tabula Rasa
«Para ele os objectos não se esgotavam na sua utilidade. Eram portadores de histórias e sonhos. Eram pedaços do seu corpo. Por um lado fazia-me impressão a ausência de leveza, por outro invejava-a. Às tantas contou-me que vivera com uma mulher, há muitos anos, que tinha o hábito de mudar os móveis do lugar. Eu sei, eu sei, toda a gente, de vez em quando, faz isso. Acontece que era todas as segundas-feiras. Em casa eram dias sagrados. Por norma ele acordava com o barulho de móveis a serem arrastados. Ela dizia que precisava de assegurar que a sua semana iria ser diferente. Ele respondia que a mudança era um processo, não um acontecimento, e era interior, não exterior. Enfim, o vulgar. Mas em vão. E foi assim que um deles saiu de casa, provavelmente numa segunda-feira. Há rituais, e cada um tem os seus, em que temos necessidade de acreditar. Aquilo que para uns é confusão, para outros significa ordem. Não existe um sentido comum apreensível por todos. Há quem consiga aceitar d...