God's Shadow




Mais um enfrentamento da fronteira, com saída das verdejantes montanhas do oeste para a secura do planalto transmontano, atravessado pelas novas vias já feitas e em construção – do pópulo à alfândega da fé, passando pela vila flor; almoço na lareira abrasadora de mogadouro para começar a espreitar o parque natural nas suas aldeias raianas: primeiro tó e barragem da bemposta a seguir, voltar para sendim com paragem na quinta de atenor onde os burros autóctones continuam a procriar graças ao trabalho voluntário para fugir do perigo de extinção; ainda descemos ao picote para espreitar a frágua do puio (uma pequena embarcação que se avista a circular nas curvas do rio, do cimo das arribas em silêncio). Na estalagem, o céu estrelado faz-nos suster a respiração e circulamos na penumbra da cidade abandonada. O dia seguinte é recheado com visita ecológica pelos últimos redutos do país em águas internacionais, observando pelas escarpas azinheiras solitárias, ninhos vazios e aves de rapina em exibições propositadas – fica o verde-escuro do espelho rompido à nossa passagem, o eco das conversas abafadas dos turistas em registo do momento e a música triunfal acompanhada pelo vinho colhido mais abaixo.



Então cruzamos os campos na outra margem, searas ao sol embaladas pelo vento, muros frágeis e ocos pontilhados de penedos, pombais mil e mais represas altas que circundamos a níveis mínimos, extensões de planície em auto-estrada, saímos em toro e de novo um mar de chão imenso, com culturas de girassol e painéis a recolher energia, até à vila dos livros, lá no alto, cercada de muralhas desertas: entramos pelos vários alfarrabistas, folheando as páginas de uma história longa, pré medieva, por largos e igrejas em erosão e voltamos a pensar nos cataclismos de outrora causados pelo isolamento extremo e extermínio das gentes. Surge-nos zamora, os olhos do rio pousados sobre uma plataforma de grés na longa via de capelas românicas, edifícios de varandas e azulejos modernistas, palácios trabalhados, museus contemporâneos na praça de viriato e religiões em trânsito (a última é o futebol); cruzamos a ponte e pelo saiago regressamos vendo os falcões à espera da caça, nos fios suspensos ao anoitecer. Assim chegamos ao fim, não sem uma pinela perdição com entrada pelas terras do pão em alcanices para as altitudes refrescantes de montesinho, após tornearmos o monte bragantino – um piquenique de pão, queijo, chouriço, cerejas e figos por cima da ponte do tuela e banho nas suas gélidas correntes. Fechamos com paisagens deslumbrantes em chaves de ouro ardente.

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