Taurobólio
"O touro assumiu, desde sempre, símbolos vários e significados mitológicos diversos, sendo motivo de culto ou motivo de imolação e manducação. Na Grécia, e tendo em conta a lenda do Minotauro, o touro seria uma espécie de «descarga catártica» do colectivo. O mesmo se passará com as touradas actuais, que servirão (como o futebol), diz Espírito Santo (1995), como «uma fuga por onde se esvaziam a violência recalcada, os instintos perversos, a desordem psíquica, os efeitos da opressão e das normas sociais». No Egipto, lembrando o boi Ápis, e entre os israelitas, lembrando o touro de ouro na base do Sinai (Ex 32, 1-6), seria ele adorado como deus ou sua hipóstase.
A referência escrita mais antiga, contudo, é feita na Epopeia de Gilgamesh. A deusa Istar pretende vingar-se de Gilgamesh e pede ao deus-touro para mobilizar o touro celeste a fim de afrontar a cidade do herói. Cada lufada saída das narinas do touro celeste mata centenas de homens de Gilgamesh. Enkidu, amigo de Gilgamesh, tenta matar o touro, pegando-lhe pelos cornos, mas não consegue. Falhada esta tentativa, pega-lhe pelo rabo e Gilgamesh pelos cornos, espetando-lhe o cutelo «entre o pescoço, cornos e nuca», uma mistura da pega na tourada portuguesa e estocada final, na tourada espanhola. Assim, matam o touro. Arrancam-lhe o coração que oferecem ao deus-sol, aplacando a sua ira.
Ao longo dos séculos, será permanente esta ligação entre o Sol e o Touro, que serão uma e a mesma divindade. Como escreve Santo «o Deus-Sol apaziguava-se com rituais taurinos» (1995, p. 13). O touro era, sem dúvida, um animal de sacrifico por excelência. Em determinadas ocasiões e em determinados rituais realizavam-se verdadeiras hecatombes. A título de exemplo, Salomão, na festa da sua coroação, mandou imolar 1.000 touros e, na consagração do templo de Jerusalém, 22.000 touros e 120.000 carneiros (2Cron 7,5). Não vendo matadores profissionais, cada qual mataria o seu. Não será difícil de imaginar estes locais como praças de «correr» os touros, o forte cheiro de carne e vísceras, as ruas cheias de sangue e os festivais de comida."
"É este significado total, do medo, ao culto e à catarse, que ainda hoje permanece, quando se olha o touro seja numa tourada à vara larga, seja numa pega na tourada à portuguesa, seja vendo-o correr ao lado da vara comprida do campino: força, potência, ferocidade e fecundidade. Ferocidade, porquanto o touro possui um arreigado sentido de territorialidade. Possui coragem e força bruta, o que é verificável quando em Natureza. O touro é manancial de abundância, pois estruma as terras e, quando domesticado, um excelente auxiliar dos trabalhos agrícolas. Possui, ainda, qualidades de chefia; o mais forte é perfeitamente notado na manada; é ele quem manda. Aliás, estas qualidades de chefia permanecem, simbolicamente, nos cornos. Ao contrário da actualidade, em que o «cornudo» é desrespeitado, não o seria nos tempos mais antigos, mesmo no Renascimento, onde, a crer na estátua de Moisés, de Miguel Ângelo, ter cornos é possuir qualidades de chefia, é estar ligado aos céus."
O Culto de Mitra e as Sepulturas escavadas na Rocha - António Maria Romeiro Carvalho 2009
Começa a pega de frente, Catatau!
Fizeste-me recordar o nosso comum amigo Catatau.
ResponderEliminarQue saudades, meu Deus...