Anunciação


«De um bruto sono, um sono sem sonhos, despertou-me a encarregada do harém.
- Salomão está te chamando - sussurrou, os olhos brilhando na semi-escuridão. Num primeiro momento, não entendi. Salomão me chamando? Para quê? Mas a mulher insistiu e, estremunhada, acabei por me levantar. A mulher quis me preparar, maquiar-me um pouco, mas eu me recusei. Fui como estava, descabelada, desarrumada - muito mais feia do que de costume. Salomão esperava-me, reclinado no largo leito.
Foi infinitamente gentil comigo; fez com que eu me deitasse a seu lado, acariciou-me, perguntou-me o que eu esperava dele. Na verdade, eu queria que me deixasse dormir, mas jamais formularia um pedido tão extravagante. Por isso: - Tua boca cubra-me de beijos - eu disse, mas um tanto receosa: funcionaria, a fórmula mágica? Não estaria eu correndo o risco de uma nova decepção? A fórmula mágica funcionou. Deus, funcionou mesmo.
O cara era bom de cama; e eu, estreando, não me saí mal. Meu ventre era como uma taça, e dessa taça ele sorveu, abundante, o vinho da paixão. Não foi a prosaica noite de núpcias que eu esperara: foi uma celebração, um verdadeiro banquete de sexo, todas as posições, todas as variações sendo experimentadas. De zero a dez, nota oito, com desconto dado por minha modéstia.
Levantei-me de madrugada. Ele dormia ainda, sonhando - com quê, eu nunca descobriria, e nem queria saber: preferia o mistério. Beijei-o pela última vez e saí. Caminhei sem ruído pelos corredores, cheguei ao jardim. De seus abrigos, fitavam-me os pombos. Sem dificuldade, pulei o muro do palácio. Corri pelas ruas da cidade adormecida, em direção ao sul, ao deserto. Ia atrás de um certo pastorzinho. Se me apressasse, poderia encontrá-lo em dois ou três dias. À altura de certa montanha. E de suas enigmáticas, mas promissoras, cavernas.»

Final d'A Mulher que Escreveu a Bíblia (1999) - Moacyr Scliar
The Virgin Reading (1505/10) - Vittore Carpaccio

Eis a voz do meu amado!
Ele aí vem, transpondo os montes, saltando sobre as colinas.
O meu amado é semelhante a uma gazela
ou ao filho da corça.
Ei-lo detrás do nosso muro,
a olhar pela janela, a espreitar através das grades.
O meu amado ergue a voz e diz-me:
«Levanta-te, minha amada, formosa minha, e vem.
Minha pomba, escondida nas fendas dos rochedos,
ao abrigo das encostas escarpadas,
mostra-me o teu rosto, deixa-me ouvir a tua voz.
A tua voz é suave e o teu rosto é encantador».
O meu amado é para mim e eu sou para ele.
Ele disse-me:
«Grava-me como um selo no teu coração,
como um selo no teu braço,
porque o amor é forte como a morte
e a paixão é violenta como o abismo.
Os seus ardores são setas de fogo, são chamas do Senhor.
As águas torrenciais não podem apagar o amor,
nem os rios o podem submergir .

Cântico dos Cânticos 2, 8-10.14.16a; 8, 6-7a


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