Lean Entente



Foram dias de conciliação com as temperaturas extremas e clepsidras invertidas: espreitou o sol para encontrar o saca-rolhas, tomar martini (não os mini-cheesecakes), ver os cortes divertidos e almoçar na churrasqueira patriota com o melhor casal - ficamos pela tarde em exploração de nomes bíblicos e combinações (im)possíveis, após os anteriores desencontros na rampa; a noite recolhe o pedido feito há um ano e traz os dedo frio para aquecerem o salão medieval numa intersecção das carreiras que ilumina em jogos de luzes o jovem público, as paredes nuas (começam na sala em ogiva, ombreados pela senhora) e as vigas xilo_decoradas com corações e natureza estilizados; escapo-me, após fugir do halo da janela de losangos coloridos, em contagem decrescente. Ontem encontrámo-nos para buscar uma tasca vímara, revermos as vidas e as famílias, lermos a poesia sobre o couros e comprar o ramo de hipeastros brancos para oferecer à diva do norte, na sua corte em concerto beneficiário. Muito bons (os dias!).



«Dali de cima viam as trincheiras que pareciam cobras, e de vez em quando morriam dezenas de soldados. Ou centenas. Ou milhares. Dali de cima, sem o cheiro das trincheiras, sem o sangue, sem os gases, sem o fumo e a lama e sem o pó, nada parecia condenável. Eram pontinhos, coisas pequeninas, que apareciam e desapareciam. Aquela era a visão de Deus. Se Ele se baixasse, veria outras coisas.
Ao final do dia foram atacados pela aviação inimiga. Soucek, quando ouviu os motores a aproximarem-se, levantou-se e pulou para fora do balão. O pesado para-quedas abriu de seguida. Sors ficou a vê-lo cair, sem reagir. Quando o avião mais próximo disparou uma primeira rajada sobre o balão, Sors ainda estava agarrado às cordas. O fogo alastrou de imediato e um pedaço de pano a arder passou-lhe pela cara. Sors soltou as cordas onde se agarrava e caiu em direcção ao chão. Abriu o para-quedas com uma calma que não julgava possuir e reparou mais uma vez nas trincheiras lá em baixo, escavadas aos esses como um bêbado.
Os homens escavam para fazer crescer. Desde casas a couves. Tudo nasce de buracos. A criatividade prefere a penumbra do interior dos nossos cérebros. Os fetos preferem o útero. Mas não é só a vida que gosta do invisível, a morte também é feita de coisas que não se veem, de emboscadas, de disfarces. E de buracos como as trincheiras. Esses buracos nunca servirão para fazer alicerces de edifícios. Porém, serviram para Sors sonhar com Františka, com beijos que sabem a janelas embaciadas.»
 O Pintor Debaixo do Lava-Loiças, de Afonso Cruz, Caminho, 2011 [in Bibliotecário de Babel]


Comentários

  1. Encantadora, a poesia sobre os couros. Já os hipeastros tiveram um grande sucesso.

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