Fiesta



 "Ao meio-dia de domingo 6 de Julho, a fiesta explodiu. Não há outra maneira de descrever. Gente chegara continuamente de fora, mas a cidade assimilara-a e não se dava por ela. A praça, sob o sol ardente, estava tão calma como nos outros dias. Os camponeses estavam metidos nas tabernas das redondezas. E lá bebiam, preparando-se para as festas. Tinham acabado de chegar havia tão pouco das planícies e dos montes, que necessário lhes era acertar pouco a pouco o nível dos preços. Não podiam começar  logo por pagar preços de café. Nas tabernas tiravam pleno rendimento do dinheiro. O dinheiro tinha ainda um valor definido a horas de trabalho e a alqueires de trigo. Mais tarde, durante a fiesta, não importaria já quanto pagavam, ou onde compravam.
Agora, no primeiro dia das festas de San Fermín, desde manhã cedo que tinham estado nas tabernas das ruelas da cidade. Ao passar pelas ruas, a caminho da missa na catedral, eu ouvia-lhes as cantorias que vinham das portas das lojas. estavam a aquecer. Havia muita gente na missa das onze horas. [...]


[...] Ficaram todos no adro da igreja onde haviam entrado San Fermín e os dignatários, deixando cá fora a guarda de honra, os gigantones mais os homens que dançavam dentro deles e ficaram ao lado das armações pousadas, e os anões, que se moviam por entre a multidão, com as suas bexigas. Enfiámos para dentro e havia cheiro a incenso e gente a encher a igreja, mas à Brett, que não tinha chapéu, não a deixaram entrar, e saímos e voltámos pela rua da igreja à cidade. A rua estava ladeada de gente que se mantinha a pé firme à espera do regresso da procissão. Uns bailadores formaram roda em torno de Brett e começaram a dançar. Traziam ao pescoço grandes colares de alhos. Pegaram em Bill e em mim pelos braços e incluíram-nos na roda. Bill desatou também a dançar. Cantavam todos. Brett queria dançar mas eles não queriam que ela dançasse. Queriam-na para imagem em torno da qual dançariam. Quando a cantiga acabou pelo súbito riau-riau! empurraram-nos para uma taberna.
Ficámos ao balcão. À Brett, sentaram-na num tonel. Estava escuro na taberna cheia de homens cantando com vozes ásperas. Por trás do balcão, o vinho era tirado dos cascos. Pousei dinheiro para o vinho, mas um dos homens pegou nele e meteu-mo na algibeira."
O sol nasce sempre - Hemingway (1926) - Ed.Livros do Brasil 1996 Trad. Jorge de Sena Pág. 171/4



(junto ao Salto Alto)

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