Doves
Eram mais de quarenta, seguramente. Viviam na gaiola gigante a elas destinada, partilhando a estrutura com outras menores para coelhos, canários e periquitos. Havia ainda, ao lado desta rectangular maior, outra menor para os cães. Logo abaixo do bloco em "L" construído para montar os equipamentos sanitários no primeiro andar do palacete, a casa de banho virada para o quintal era a privada do quarto dos pais, com luminosa marquise envidraçada. E dali ecoava por toda a habitação o arrulhar constante que cá por baixo muitas vezes resultava ensurdecedor.
As três espécies originais (de colar, bravas e brancas) iam-se cruzando em ovos chocados nos nichos verticais feitos a propósito na parede interior, donde resultavam padrões mais suaves em degradê ou esfíngicos, quase metade_metade. O cu_curú foi banda sonora permanente da minha infância, entre cortado pelos risos e correrias pré_adolescentes que frequentavam o rés-do-chão. Eram uma paixão do pai; não sei a razão mas sei-o no coração: um marejar suave que media o dilatar e encurtar das estações, essa tolerância assumida por todos lá em casa no convívio entre os indivíduos e as espécies (que com o tempo foram desaparecendo)e, acima de tudo, o sentido de paz vivida no lugar desse amor.
Dias após a sua morte, a mãe decidiu soltá-las, para sempre.Aqui vejo os casais livres em voos matinais, das árvores para os postes de iluminação, para os telhados, lembrando-me a presença do seu espírito.
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| Child with a Dove - Picasso 1901 |

Gostei, embora não goste de pombas, apenas como símbolo...
ResponderEliminarSão rolas, João, são rolas...
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