ruins
Iremos procurar a razão da giesta
a razão do amarelo
iremos procurar a razão
iremos procurar
e os olhos tomarão todas as cores
as cores de tudo
Mordeu a vida a pele da minha mão direita.
Na mão direita que segura o ferro
e assim julgava dominar o tempo,
devagar, mas depressa, como não existindo,
entrou incendiado um sopro do destino
sobre o qual aqui me tenho acocorado.
Sentado no curto escabelo que me deram
espreito aqui da cave pela janela alta
as pessoas que passam.
Passam passam deixo de vê-las
enquanto ergo e baixo a ferramenta.
Continuo sentado no escabelo que me deram
e no escuro desta cave estou acompanhado.
Sim, acompanhado
não por quem passa
mas por quem não passa.
Há um rio e o outro lado do rio.
Ao longe há um verde entrando pelos olhos que fecho
e sem saber ao certo
se o que entra é a cor de um certo tempo antigo
ou o licor de um outro tempo novo.
E verifico então de olhos molhados
que não há que saber
nem distinções na paisagem
— que é uma só no largo coração.
Estar aqui é como não estar aqui.
No escuro onde as minhas lentas mãos modelam
a pele deste ser vivo,
o universo,
é da fina camada que cobriu
o seu vasto percurso
no largo da pastagem,
é no táctil roçar da sua vida
que uma luz, é esta!, me transporta.
(…)
Pedro Tamen - O livro do sapateiro, Lisboa: Publicações Dom Quixote, 2010
La eternidad está en las cosas
del tiempo, que son formas presurosas
Jorge Luis Borges