Sabotage
«Uma noção que, em princípio, nos terá a todos de acordo é a de que uma das tarefas essenciais da poesia passa por resgatar a língua dos usos que a tornam um mecanismo vulgar. Do apego às frases feitas, a trocadilhos, analogias coxas, há toda uma arregimentação banal que acaba por viciar a própria inteligência, essa que, por cima e atrás, manipula os fios, brinca e anima o corpo da linguagem, representando o pensamento. Isto até que o cansaço a deixe enrodilhar-se nos fios, amarrando-a a um guião de call center para o resto da vida. Por isso a poesia é, em grande medida, uma arte de sabotagem, até do artifício linguístico: a invenção de artimanhas que possam romper com o mesquinho tráfico de ideias a que nos condenamos falando cada vez mais baixo, por falta de inspiração e audácia. Como nos encanta uma frase que põe as mesmas coisas numa ordem imprevista e as expõe a outra luz. Aliviando o aperto entre as palavras, o pensamento que se deixa arrastar por elas tende a ganhar folga, desenvencilhando-se para reclamar de novo margem de manobra. É um jogo de crianças que pode ficar difícil à medida que se envelhece. A poesia serve, assim, como generosa infantilização, para reaver as evidências, ganhar-lhes nova estima, safar-nos da anquilose no exercício de levar o mundo à boca. Por isso se dirá que o primeiro impulso da poesia não é comunicar mas interromper, devolver a dificuldade e a estranheza que permite a redescoberta.»
Diogo Vaz Pinto (Cadernos do Subterrâneo- i nº2013) 10/11 Outubro
Chamem-lhes domingos ou dias de doce fadiga.
Não é mais fácil esquecer a vida, mas é o que temos
de mais parecido com o descanso que a morte promete.
Visto-me tão mal quanto possa e vou
subindo a rua mais sinuosa, não há pressa. Observo
gatos a vadiarem por entre curtas sensações de paz,
passando à porta dos tugúrios onde me deixo
sentado a um canto enovelando uma série de pensamentos
- como discos riscados - a tocarem para estas espessas
horas de falência, bebidas e, a intervalos, mijadas
no urinol. Tenho o suficiente se me apetecer cair
sem peso, voar pelo chão, sorrir no inferno.
Mantenho um discurso de circunstância,
invento personagens fictícias que me ouvem atentamente
e vou quebrando o sigilo, amadurecendo teorias.
Deixo-me entusiasmar e crescer
planeando o contra-ataque, a revolução...
Mas assim que atinjo o ponto mais alto, os próprios
companheiros que me inventei vão virando os bolsos,
sacodem de leve as calças e levantando-se passam por mim,
deixam cair uma mão fria no meu ombro
e despedem-se abanando a cabeça.
Vejo-me de novo a sós, enfrentando um copo vazio
e uma folha de papel amassada. Uma vez mais
sinto inveja dos doidos a sério. Parece que eu só sonho
e acordo. E tudo o que sei é anotar as cinzas.
in "Nervo" (Ed. Averno, Lisboa, 2011, p. 117)
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