हरिजन
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| Yatra (2004)Anjolie Ela Menon, oil on masonite board. Gift of Gallery ArtsIndia, New York |
"- O senhor aceita, com certeza - observou Gandhi em tom grave.
- com certeza - respondeu lord Louis sem reflectir.- De facto, a minha decisão estava tomada há já algum tempo, e...
- Não duvido sequer por um instante, excelência - sorriu Gandhi.- Pois bem - continuou ele inesperadamente -, já que o assunto está encerrado, gostaria de lhe falar de duas ou três coisinhas.
Lord Louis ficou preocupado: quando o Mahatma evocava «coisinhas», tratava-se sempre das ideias mais extravagantes. Mas qual! Seria conhecê-lo mal imaginar que seria portador de um único pedido; que iria ele tirar da caixinha das surpresas?
- Primeiro desejo falar-lhe da pessoa que imaginei para desempenhar a função que o senhor acaba de aceitar - começou Gandhi.
- Perdão? - indagou Mountbatten, estupefacto.
- Os tempos actuais não o permitem - continuou Gandhi sem se perturbar. - Mas talvez um dia a Índia tenha o chefe de Estado que lhe convém. Uma mulher harijan.
- Uma intocável? - bradou lord Louis.
- Uma filha de Deus, sim, sir. Vinte anos, habituada aos trabalhos indignos, de mãos sujas, mas de coração puro e sem corrupção. Um cristal - disse ele com entusiasmo.
- É uma ideia generosa, admirável até; pensa que a Índia está preparada para tal? - perguntou Mountbatten, com prudência.
- A Índia nem sonha - admitiu o Mahatma.- mas, um dia, hão-de lembrar-se de que eu o havia pedido; levará talvez vinte anos, trinta anos; não sei se ainda seremos vivos, nós os dois, sir."
Por Amor da Índia - Catherine Clément (1993)
Há um saber qualquer
que há-de ser semelhante ao das estrelas
no seu fino fio ausente a colisão:
é quando as coisas se complicam, ou se abrem,
ou muito simplesmente
se incendeiam.
Estará decerto no amar esse saber,
e por isso talvez do coração
diziam os antigos ser o meio,
o centro do pensar.
Talvez assim também
entre a cor da paisagem
e o recordar de cor
um rosto, uma janela quase circular,
um levíssimo gesto antecipado,
pode haver o mais óbvio
comum a universo:
explosão de estrela nova gerando
outras estrelas, ou mesmo
revogando a antiga luz.
Mas em tal comprimento de energia
que o átomo que foi,
desconcertado,
de encontro ao mais vazio,
tenta reconcertar outro
caminho
de onde: novo saber,
um brilho novo,
transversal a tudo.
Quanto ao humano,
sublunar na sua imperfeição,
cinde-o a maravilha do cuidar,
e só lhe resta: amar –
o que perfaz em soma,
igual ao fogo de que é feito
a estrela –
Comum Claridade - Ana Luísa Amaral

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