Provoke Sovereignty



Desde há anos que insisto no potencial fascizante de uma crise financeira que acionou o mais poderoso dos aspiradores que suga dos pobres para dar aos ricos (e a que os neoliberais têm chamado “austeridade”), que, a pretexto do que se nos tem descrito como sendo as “consequências irreversíveis da globalização”, asfixia a saúde e a educação públicas de que depende 90% da população, dá cabo de pensões e remunerações, humilha trabalhadores de 40 e 50 anos e explora jovens e migrantes, a todos querendo convencer serem culpados do seu próprio desemprego, da sua pobreza, das suas doenças crónicas.
Crises assim, sabemo-lo há muito, servem de instrumento de recomposição das relações sociais e de rearticulação do capital e do poder. Na vida dos Estados, abrem caminho a novos regimes. E era bom que nos lembrássemos que os novos regimes não surgem sempre, nem a maioria das vezes, por golpes ou revoluções armadas. Os de Mussolini e Hitler instalaram-se no poder por processos perfeitamente constitucionais que se desenvolveram na fase a que Daniel Woodley e Mark Neocleous têm chamado o “liberalismo autoritário”, sustentados sobre coligações de direita que rapidamente se fascizaram.

Protesto nas imediações do estaleiro do aeroporto de Narita - Autor desconhecido. c. 1969
Collection of The Art Institute of Chicago

Quem achar a comparação excessiva aceite pelo menos lembrar-se de como direitas que se diziam democráticas apoiaram e participaram plenamente nas ditaduras latino-americanas dos anos 60, 70 e 80. Não se espere hoje que o establishment modere Trump porque é ele que se está a trumpizar a bom ritmo, da mesma forma que já Berlusconi berlusconizara grande parte do aparelho de Estado italiano.
Neste contexto, a social-democracia (SD) europeia pode ser decisiva. A muito evidente viragem liberal que assumiu desde os anos 80 já foi determinante na imposição de uma globalização da desregulamentação, das privatizações, da precarização do trabalho. A sua responsabilidade foi central na construção (e ainda hoje o é na gestão) da Europa do euro e da União Económica e Monetária, e era urgente que fizesse o seu mea culpa pelo papel que desempenhou nestes 20 anos que entre Maastricht (1992) e o Tratado Orçamental (2012).[...]
Com a crise nos roubaram trabalho e segurança nas relações sociais; com a luta contra o terrorismo nos tiram, na Europa, a liberdade e as garantias do Estado de Direito. Um novo autoritarismo ameaça legalizar-se, tornar-se regime.

Jorge Sampaio e a “ameaça populista” - Manuel Loff no Público




Comentários

Mensagens populares deste blogue

Palavra

Átimo Sempre

Herbarium Amoris