Exposición Extrema
« Moby Dick ia perdendo as forças. Já a corrente a desviava para a margem, para a ignomínia do encalhe definitivo, para as águas baixas, poluídas dos dejectos de um milhão de seres humanos. Se a baleia não fosse um animal certamente obtuso e sem memória, viria agora à rede do estilo a lembrança dos grandes e abertos mares por onde navegara no tempo da sua robustez. Mas o corpo meio afundado desagregava-se, a pele estalava e embebia-se de água - ao passo que os olhos turvos mal distinguiam os barquinhos que a mareta sacudia e os curiosos que dentro deles disparavam máquinas fotográficas contra a primeira baleia de sua vida.
Ninguém deu pelo minuto exacto em que Moby Dick morreu. O seu corpo imenso estava a extinguir-se aos poucos, agora este lado do dorso, agora aquela barbatana, a seguir a cauda, a cabeçorra informe, até que uma célula remota, perdida entre os grandes arcos das costelas, se dissolveu na massa fétida que invadia tudo. Os curiosos afastaram-se apertando o nariz, os barqueiros deram balanço ao negócio inesperado, mas de curta duração - e a baleia ficou sozinha, imóvel, enquanto as águas do rio marulhavam à sua volta, e por baixo os peixes atacavam o ventre liso e vulnerável.
A cidade, nessa noite, conversou muito. No dia seguinte, os jornais afirmaram que a baleia seria queimada. Não o foi. Rebocaram-na para o largo e desfizeram-na em bocados. Vivera o seu tempo, e acabara de triste maneira, degradada, como um simples ouriço que a ressaca vai rolando na praia.
E eu pergunto: Que estranho caso ou presságio trouxe aqui de tão longe este animal? Por que veio Moby Dick, entre duas náuseas, morrer a Lisboa? Quem me dirá porquê?»
Final de MOBY DICK EM LISBOA
« Ao cair da tarde (singular expressão é esta, que faz da luz ou do seu desmaio, "ao cair da noite", algo de pesado e denso que desce sobre a terra agressivamente), depois do dia de trabalho, se o tempo está macio e o cansaço não pede o rápido refúgio em casa, onde em geral outro trabalho espera, gosto de andar pelas ruas da cidade, distraído para os que me conhecem, agudamente atento para todo o desconhecido, como se procurasse decididamente outro mundo. Posso então parar em frente de uma montra onde nada existe que me interesse, ser microscópio assestado às pessoas, radiografar rostos para além dos próprios ossos, penetrar na cidade como se mergulhasse num fluido resistente, sentindo-lhe as asperezas e as branduras. Nessas ocasiões é que faço as minhas grandes descobertas: um pouco de fadiga, um pouco de desencanto, são, ao contrário do que se pensaria, os ingredientes óptimos para a captação mais viva do que me cerca.»
Início de NO PÁTIO, UM JARDIM DE ROSAS
José Saramago
quando eu morrer murmura esta canção
que escrevo para ti. quando eu morrer
fica junto de mim, não queiras ver
as aves pardas do anoitecer
a revoar na minha solidão.
quando eu morrer segura a minha mão,
põe os olhos nos meus se puder ser,
se inda neles a luz esmorecer,
e diz do nosso amor como se não
tivesse de acabar, sempre a doer,
sempre a doer de tanta perfeição
que ao deixar de bater-me o coração
fique por nós o teu inda a bater,
quando eu morrer segura a minha mão.
Vasco Graça Moura
Comentários
Enviar um comentário