Beautiful Consolation



« Para os gregos da antiguidade clássica o universo não era interpretado como caos, mas sim como um cosmos, ou seja, um mundo ordenado. O belo é, para Aristóteles, o esplendor da ordem. A crença na ordem universal das coisas possibilitava a compreensão do mundo e proporcionava um sentido para a existência. O indivíduo encontrava, pois, o seu lugar na civilização e o reconforto para os grandes problemas nas relações com os outros e com os deuses. Contudo, apesar das aparências, Ésquilo interrogava-se sobre a vulnerabilidade e a fragilidade do Homem: "quem, a não ser os deuses, está ao abrigo do sofrimento durante toda a sua vida?". O criador da tragédia grega, questiona  a nossa consciência e pondera sobre o sofrimento humano. Ao contrário dos deuses, a condição humana está marcada pelo sofrimento e pela finitude, não podemos fugir ao nosso destino.



Na contemporaneidade, tal como no passado, a humanidade permanece debilitada e instável. Apesar do progresso material e económico, da melhoria das condições de vida, das conquistas tecnológicas e do conforto, não conseguimos abolir o sofrimento, nem escapar da morte. Por outro lado, a sociedade da abundância trouxe prosperidade material, mas o ser humano continua insatisfeito e angustiado. Os nossos modos de vida estão marcados por aspectos como: o hedonismo, o relativismo,o consumismo e o individualismo. Vivemos numa sociedade do desejo e procuramos desenfreadamente uma nova felicidade, mas perdemos a tranquilidade e sentimos uma impossibilidade de contentamento. A experiência humana está, deste modo, marcada pela decepção,pela frustração e pelo descontentamento. Daí a excitação permanente pela novidade e pelas experiências intensas, mas as consolações obtidas apenas proporcionam alívios instantâneos e, por vezes, mais desapontamento e infelicidade.



Para Schopenhauer, o indivíduo deve libertar-se das exigências da vontade permanente e transformar a dor em conhecimento, através de actividades ligadas à filosofia e à arte, de maneira a obter uma fonte suprema de alívio e consolação. O querer procede do sofrimento, está associado a uma necessidade, a uma privação. A satisfação coloca-lhe um fim, mas a sua duração é curta e surgem novos desejos. Na perspectiva do filósofo, enquanto somos súbditos da vontade, não existe felicidade duradoura, nem repouso. Pela contemplação estética o indivíduo consegue libertar-se da vontade e relacionar-se desinteressadamente com o mundo, sem dor e com serenidade de espírito.



Através do prazer estético libertamo-nos da agitação e da perturbação, entramos num outro mundo. O nosso olhar torna-se livre e dissolvem-se as necessidades e as preocupações que nos atormentam, sentimos um alívio e um consolo que refrescam o nosso ser. O encanto proporcionado pela contemplação do belo constitui uma espécie de abrigo pelo qual escapamos à dor e ao sofrimento, um sentimento balsâmico que possibilita a consolação. Pela sensibilidade estética e em presença do belo, somos capazes de nos elevarmos a uma contemplação serena do mundo que nos rodeia, libertos da vontade e das exigências. O belo permite desembaraçarmo-nos de nós mesmos, a vontade retira-se e somos convidados à demora desinteressada, o tempo é interrompido e instala-se a quietude. Dostoievski acreditava que a beleza salvará o mundo. Será que a reconciliação com o mundo passa pela contemplação estética? Podemos aspirar a uma salvação pelo Belo?»

José Augusto Ribeiro no prefácio dos EI2018

Praça Jemaa El Fnaa, Marraqueche.  Leila Alaoui no Museu YSL

«Fez-se a magnífica obra da portaria dividindo-se me duas partes com um passadiço que corre da sacada em que fica a porta do noviciado para a outra que lhe corresponde da parte das hospedarias, com arcos de pedra da parte do sul de abóbada com seus assentos e alegretes, no meio deste passadiço se lhe fez uma fonte com graça e utilidade para os monges para lhe dar água a toda a hora (...) e da parte da portaria em correspondência se fez um nicho onde se pôs uma Imagem em grande de S. João Baptista: e desta mesma parte está o jardim com um fermoso e vistoso chafariz de pedra bem lavrada, pintado e dourado e se rebocaram e dealbaram as paredes do Mosteiro que cercam o jardim; e também se abriu de novo uma janela rasgada na cela do canto da parte do poente dos N. Revms.»

Fundo Monástico Conventual (1731/4), Conventos e Mosteiros, Tibães, Livros do Depósito, 586 - Arq. Distrital de Braga



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