Corona Vibes
[...] Agora, um novo vírus da família dos coronavírus está entre nós. A sua propagação inicial ocorreu a partir da China desde o final de 2019. Foi contido em vários países através de medidas de confinamento, distanciamento social e uso de máscara, e só nos resta esperar que, continuando com a aplicação dos mesmos meios de protecção, os esperados recrudescimentos subsequentes não suplantem as primeiras vagas nos vários sítios do planeta. A nossa vida mudou. A economia está a ressentir-se. A política passou a ter outras prioridades. A ciência virou-se para um novo foco. À ética foram colocados novos desafios. À arte impôs-se um novo tema. A religião foi afectada.
Passados mais de seis meses sobre o começo da epidemia causada pelo novo coronavírus, que em 11 de Março de 2020 se tornou em pandemia, sabemos hoje muito mais sobre a doença do que no seu início. Os primeiros casos reportados na China em Dezembro de 2019 pareciam pneumonias, tendo sido considerados pneumonias atípicas. Vendo bem, havia bastantes semelhanças com a SARS. Era uma espécie de segunda SARS – a sequenciação do vírus realizada logo em Janeiro de 2020 revelou essa forte semelhança – mas a sua capacidade de transmissão entre seres humanos revelou-se bem maior, fruto de algumas diferenças muito relevantes entre os dois vírus.
O novo coronavírus não demorou a galgar fronteiras, à boleia das ligações rápidas e frequentes que caracterizam este mundo globalizado. O continente americano – em especial, os Estados Unidos e o Brasil – acabou por ser mais afectado do que a China e os países asiáticos vizinhos. A Europa foi um caso intermédio, com situações particularmente graves na Itália, Espanha e Reino Unido. O mundo é hoje uma aldeia, não apenas para nós, mas também para o vírus, por uma razão muito simples: ele anda connosco.
Toda a humanidade passou a ser cobaia de uma gigantesca experiência não planeada e, por isso, não intencional. Os serviços de saúde redireccionaram boa parte do seu arsenal de meios humanos e tecnológicos para responder ao novo vírus. Apesar disso, em muitos hospitais os meios revelaram-se insuficientes para tratar todos os doentes, face ao grande número de casos simultâneos, e decisões que antes pareciam impossíveis de ocorrer, como escolhas sobre as prioridades nos cuidados intensivos, tiveram de ser tomadas pelos profissionais de saúde. A ciência passou a dedicar a sua maior atenção ao novo mal. Os trabalhos científicos sucederam-se e os artigos contendo os seus resultados multiplicaram-se.
Hoje, continuando a ter algumas dúvidas (Porque há tantos casos de infectados assintomáticos? Quanto tempo dura a imunidade após uma infecção?) sabemos muitas coisas: desde logo que as medidas de isolamento social, o uso de máscara, a higiene das mãos e o arejamento dos espaços interiores são instrumentos poderosos para conter a propagação da doença. O lock-down nalgumas regiões do mundo, a começar logo na cidade de Wuhan, na China, onde o vírus começou, revelou-se bastante eficaz.
Os protocolos de tratamento da doença nos hospitais melhoraram extraordinariamente, uma vez reunidos dados suficientes sobre doentes em todo o mundo. Centena e meia de candidatos a vacina apresentaram-se rapidamente, dezenas deles chegaram aos ensaios clínicos em seres humanos e uma mão cheia atingiu as fases finais. Aprendemos com base na aplicação do método científico. A ciência é e continuará a ser a nossa esperança.
Por outro lado, uma vez que o ser humano construiu um cibermundo, um mundo virtual ao qual a maior parte das pessoas do planeta estão conectadas, além da epidemia chegou uma infodemia, isto é, uma avalanche de informação, que, em muitos caos, talvez mesmo na maioria deles, é falsa. Portanto, há um vírus a espalhar-se e, espalhando-se ainda mais rápido, há também desinformação sobre o vírus. Neste mundo de fake news, de auto-ilusão e de pseudociência, a que alguns chamam mundo da “pós-verdade”, a desinformação campeia: não só sobre o vírus e a doença que provoca, mas também sobre os mais diversos temas das nossas vidas. Numa sociedade que se chama do conhecimento, a crença continua, contra as nossas melhores expectativas, a desempenhar um papel determinante. Quando o ser humano acredita em alguma coisa, tem uma forte tendência para pensar que ela é verdadeira. [...]
Apanhados pelo Vírus - David Marçal e Carlos Fiolhais, Ed. Gradiva 2020 em pré-publicação no Público
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