Ci(L)enciarte


«Estaremos de facto a abandonar a civilização da escrita e a passar para a civilização da imagem? Será que essa passagem pode ou deve ser pensada à luz daquela outra que se operou entre uma primordial civilização da voz e a invenção da escrita? Que pode significar estarmos a entrar num mundo icónico, fundado em regimes visuais de pensamento e comunicação? E, posto que aceitemos estar já no interior de uma nova configuração civilizacional, em que consiste o papel que a imagem aí é chamada a desempenhar? Qual o destino da escrita face à dita supremacia da imagem? De que forma determina ela a nossa vida e a nossa forma de estar o mundo? Qual o seu estatuto cognitivo? Que efeitos tem a imagem sobre o nosso conhecimento do mundo? Em limite, o que é isso de uma imagem? Será ela uma mera aparição, uma simples mediadora, efémera e evanescente, destinada a desaparecer face à presença soberana do conceito? Ou, pelo contrário, ela é uma apresentação sensível autónoma, um condensado de sentidos e horizontes de possibilidade que só nela se dá a ver?»

Olga Pombo sobre o livro Da Civilização da Palavra à Civilização da Imagem (2012) org. Centro de Filosofia das Ciências da Universidade de Lisboa pela própria & António Guerreiro. Ed. Fim de Século


«Tal como hoje a conhecemos, a escola, com os seus curricula segmentarizados, os seus programas especializados, as suas salas sigilosamente separadas, os seus horários rígidos, a sua disciplinaridade estanque, é para McLuhan uma figura irremediavelmente condenada. Coextensiva com a cultura Guttenberguiana de que constitui uma das mais significativas realizações, a escola - e o tipo de ensino que nela se opera e produz - obriga à apresentação disciplinada das ideias em enunciados formais de acordo com conexões lógicas explícitas, ao estabelecimento de sucessões discursivas lineares de que são exemplo maior o equacionamento da realidade no espaço tridimensional de Euclides e as leis de causalidade linear estabelecidas pela ciência moderna. Baseada na lição, na escrita, no livro, na segmentação curricular, a escola tradicional promove uma aprendizagem sequencial, comulativa e fragmentária que vai ter como efeito mais notório a ruptura entre as duas culturas: o humanismo eloquente e erudito e a especialização técnico-científica. 

Pelo contrário, segundo McLuhan, a cultura eletrónica, ao proceder por instantaneidade eléctrica e por iluminação súbita dos vários sentidos, faz apelo à percepção global dos dados, à simultaneidade sensorial e à integração intelectual, aponta para uma estrutura interdisciplinar dos curricula, promove a integração dos saberes. Simultaneamente, ao permitir, e mesmo solicitar, a participação activa do estudante no seu próprio processo de aprendizagem, ao colocar à sua frente um universo permissivo onde a exploração imaginativa é livre de estabelecer encontros, aproximações, agregados sugestivos, redes analógicas insuspeitadas, a escola cibernética do futuro fará desaparecer a antinomia trabalho / lazer.»

O Meio é a Mensagem (1994)  in McLuhan, A Escola e os Media - Olga Pombo (org..), 1º Caderno de História e Filosofia da Educação, Lisboa: ed. Departamento de Educação da Faculdade de Ciências de Lisboa,  pp. 40-50

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