Heliografia



 E lava os dentes como bom mortal,

que a riqueza não paga esse cansaço.

E os olhos eriçados de ambição

confunde-os ele a azul iluminado.


Toma um pequeno-almoço que será

um pouco menos torto que os demais,

café, meia toranja, quiçá um sumo

leve de laranja e curtos cereais.



Verá a névoa a desprender-se, suave,

da erva, como pálido vapor?

E ficará em espanto nessa névoa,

como o outro, em esplendor?


Provavelmente, não, mas não se sabe,

sabe-se só que nesse dia sai

e volta aos seus assuntos imortais, 

astutos e preclaros e enxutos.




E um dia qualquer, como qualquer

mortal em frente aos dentes e ao espelho,

há-de passar a estado de erva quente

ou fria, consoante for estação.


Outro virá, noutro espelho em função

menos ou mais acesa. Só a erva,

feliz por ser só erva, ficará, 

não se sabendo ela também mortal.



Como de resto tudo o que se encontra

abaixo de uma linha estranha e torta,

que em nós: ausente de definição.

Mas a suspeita existe, se a escutarmos


de um reduto de som. E esse: comum

ao pequeno fulgor que a sustentou.

Dele sobram as folhas enceradas.

Do resto, só o verde. Enquanto existe-


Pequena Fábula da Mortalidade - Ana Luísa Amaral

View from the Window at Le Gras, the first successful permanent photograph created by Nicéphore Niépce in 1827, in Saint-Loup-de-Varennes (Saône-et-Loire, Bourgogne, France). Captured on 20×25 cm oil-treated bitumen. Due to the 8-hour exposure, the buildings are illuminated by the sun from both right and left

Comentários

Mensagens populares deste blogue

Palavra

Átimo Sempre

Herbarium Amoris