Conundrum


Venho de longe, de rios e igarapés de águas claras, estradas bonitas, luares estrelados, duma cidade flor, cheirosa a jasmins e malva rosa.

Venho da terra formosa de serenatas, violões, açaí, madrugadas lindas e crepúsculos incomparáveis!

Sinto ainda, como num sonho feliz, a caricia do banho de água salgada, a alegria dos passeios, em barcos à vela, o encanto das margens verdes, pelas quais corre, assustado, o guará bonito de pernas vermelhas.

Na saudade, volto à minha infância venturosa, ouço alegremente o sino da igreja, soando Ave Maria, quando eu, criança ainda, rezava à Virgem Maria do Céu!

Venho de campinas floridas e gorjeios da passarada azul, da terra de meus pais, a minha cidade flor – Vigia!



Fui e sou ainda como a árvore frondosa! Floresci, dei frutos e sombra.

Meus ramos, viçosos, multiplicaram-se em flores e ainda hoje há um sol que os afaga, nos sorrisos de meus netos e netas.

Cresci à sombra de carinhos e afetos, fortaleci-me na beleza dos campos, ao ar livre, pisando, descalça, ervas macias, cheias de orvalho e depois, sorrindo à vida, recebi a mocidade em róseas taças de luares, estudei, casei, multipliqueime e hoje vejo, sinto que vivo noutras vidas, glorificada pelo meu grande amor de Mãe!

Meus ramos ainda ascendem ao Azul e vão buscar na luz das estrelas, o perfume e o vigor, que oferecem à haste a fortaleza necessária para vencer as intempéries!

Portanto, “ainda há sol em minha vida” no inverno de meus cabelos e foi a velhice que me deu inspiração para escrever os versos deste livro. 


Eu



Prefácio ou "escrita sobre si" de Rimas do Coração (1958) - Ester Nunes Ribas

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