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endemia comensal

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[...] As desigualdades da covid-19 não são apenas as das taxas de infeção e mortalidade. Com as economias viradas do avesso, como se propagam – e propagarão – as sequelas do vírus pela economia e pela sociedade? Será que uma doença como a covid-19 pode lançar as bases para uma sociedade mais igualitária? Há quem julgue que sim. Walter Scheidel é um deles. Para este historiador, as catástrofes são as Grandes Niveladoras . Quanto mais traumática for a catástrofe, maior é o seu potencial nivelador das desigualdades. As pandemias, diz Scheidel, são uma de quatro catástrofes passíveis de reduzir a desigualdade. As outras três são a revolução, o colapso do Estado e a guerra. A história parece dar-lhe razão. A Peste Negra matou um terço da população. O preço do trabalho aumentou. A Revolução Francesa destruiu o feudalismo e lançou as bases para a igualdade política. Já no século XX, a Segunda Guerra Mundial abriu caminho a trinta anos de crescimento económico e diminuição da desigua...

Manicomio

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"Ao passo que na sua maioria as doenças hoje estudadas pelos alienistas pertencem no fundo á pathologia interna, e só pelo predominio, mais apparente ás vezes do que real, dos seus symptomas psychicos se apropriaram a designação de mentaes , os delirios systematisados, esses, pela ausencia de caracteristicas lesões, pela falta de privativas causas determinantes e pela carencia de symptomas funccionaes objectivamente apreciaveis, constituem a verdadeira loucura, a psychose por excellencia, n'uma palavra, o proprio e irreductivel dominio da psychiatria. Isto é dizer que a observação clinica não póde, ella só, determinar a génese d'estes delirios, pois que o confronto dos dados psychicos com os somaticos e etiologicos é, no caso sujeito, impraticavel. Foi, todavia, pelo exclusivo exame do hypocondriaco, do perseguido, do ambicioso, que os alienistas buscaram até ha pouco surprehender a pathogenia dos delirios essenciaes. D'aqui o natural insuccesso dos seus trab...

véspera

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Eu vou no arrepio Eu vivo o desconforto Eu sinto o calafrio Pressinto o maremoto Eu falho sempre o tiro E digo que é por pouco Faço mira ao destino Mas do lugar do morto Isto é um ápice Isto é um triz E eu estive quase Pra ser feliz Hesito e não mergulho E o susto não me passa Eu já não tenho orgulho Mas prezo a carapaça É onda que recua É nuvem que ameaça Eu já nem saio à rua Com medo da desgraça Oh Oh Oh Dentro do meu armário não há verão Oh oh oh Eu sou como o canário Da mina de carvão Eu sinto falta de ar Eu tenho falta de ar As aves já não piam O calo já não sofre As folhas rodopiam E cheira a enxofre Eu sou um gato preto Eu nunca tenho sorte Faço secar o trevo Posso agoirar a morte É um ápice É um triz E eu estive quase Pra ser feliz Oh Oh Oh Aqui no meu armário não há verão Oh oh oh Eu sou como o canário Da mina de carvão Oh Oh Oh No escuro do armário não há verão Oh oh oh Eu sou como o canário Da mi...

Bad Luck

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Conduzi a palavra até vós, como fogo, Trevas mais densas do que as chamas ao vento. Não tive derrotas neste combate árduo, Nenhuma estrela maligna, nenhum delírio. Assim existo com o fervor da labareda, Só conheci a sua curvatura E a noite que há-de nascer ao expirar O impulso do destino nas janelas? Sou a palavra instaurada pela ausência, Que destruirá tudo o que repito. Sim, não ser mais do que palavra e perecer, Eis a tarefa fatal e a coroação inútil. UMA VOZ - Yves Bonnefoy “Une Voix”, in “Du Mouvement et de l’Immobilité de Douve” (1953) Trad. Jorge Henrique Bastos Despedaça expor esta fractura, espiar por ela os meus amigos, fechados vários peitos, várias artérias, pela máquina morte removidos. Escritas daninhas: pouca me sinto já para expurgá-las! Em lava aluem, riscam a lume páginas estremes, e um braço na tormenta salienta-se das vagas, frutífero implanta-se no seio do nosso corpo escasso. Membro em viço, irmão braço vem por dentro s...

ἐκλογή

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José Ferreira Thedim ao lado da primeira estátua de N.S Fátima (1920) A treze de Maio na Cova da Iria Apareceu brilhando a Virgem Maria A Virgem Maria cercada de luz, nossa mãe bendita e mãe de Jesus. Foi aos Pastorinhos que a Virgem falou. Desde então nas almas nova luz brilhou. Com doces palavras mandou-nos rezar A Virgem Maria, para nos salvar. Mas jamais esqueçam nossos corações que nos fez a Virgem determinações. Falou contra o luxo, contra o impudor de imodéstias, modas de uso pecador. Disse que a pureza agrada a Jesus; disse que a luxúria ao fogo conduz. A treze de Outubro foi o seu adeus; e a Virgem Maria voltou para os céus. À Pátria que é vossa, Senhora dos céus, dai honra, alegria e a graça de Deus. À Virgem bendita cante seu louvor toda a nossa terra num hino de amor. Todo o mundo a louve para se salvar desde o vale ao monte, desde o monte ao mar. Ah! Dêmos-lhe graças por nos dar seu bem à Virgem Maria nossa ...

terr

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Tive um sonho que em tudo não foi sonho!.. O sol brilhante se apagára; e os astros, Do eterno espaço na penumbra escura, Sem raios e sem trilhos, vagueavam. A terra fria balouçava céga E tetrica no espaço ermo de lua. A manhã ia, vinha... e regressava... Mas não trazia o dia! Os homens pasmos Esqueciam no horror dessas ruinas Suas paixões. E as almas conglobadas Gelavam-se n'um grito de egoismo Que demandava — luz. Junto ás fogueiras Abrigavam-se... e os thronos e os palacios. Os palacios dos reis, o albergue e a choça Ardiam por fanaes. Tinham nas chammas As cidades morrido. Em torno ás brazas Dos seus lares os homens se grupavam, P'ra a vez extrema se fitarem juntos. Feliz de quem viria junto ás lavas Dos volcões sob a tocha alcantilada! Hórrida esp'rança acalentava o mundo! As florestas ardiam!... de hora em hora Cahindo se apagavam; crepitando, Lascado o tronco desabava em cinzas. E tudo... tudo as trévas envolviam. As frontes ao clarão da ...

Peste Viva

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[...] O que está a acontecer na nossa relação com a morte não constituiu surpresa. Os sintomas estavam aí. Agora intensificaram-se bruscamente. Já sabíamos que se havia burocratizado e desumanizado, perdida na voragem do tempo produtivista. A paragem, contemplação e seus rituais não se compadecem com outro ser omnipresente e todo-poderoso, os mercados, que fazem com que a maioria apenas consiga lutar pela sobrevivência. Agora temos também o vírus. E se os mais privilegiados tinham sonhos de imortalidade, que a tecnologia prometia, ou desejos de prolongar a vida, através do esforço, do exercício, de uma vida saudável, da ausência de traumas, enfim, com muita disciplina, eles também esmoreceram. A epidemia veio lembrar-nos que permanecemos enraizados na nossa existência corporal com todos os perigos que isso implica. E, no entanto, temos dificuldade em admitir a vulnerabilidade a que estamos submetidos. Custa-nos aceitar que vírus, epidemias e morte fazem parte da vida. É como a d...