Peste Viva



[...] O que está a acontecer na nossa relação com a morte não constituiu surpresa. Os sintomas estavam aí. Agora intensificaram-se bruscamente. Já sabíamos que se havia burocratizado e desumanizado, perdida na voragem do tempo produtivista. A paragem, contemplação e seus rituais não se compadecem com outro ser omnipresente e todo-poderoso, os mercados, que fazem com que a maioria apenas consiga lutar pela sobrevivência. Agora temos também o vírus. E se os mais privilegiados tinham sonhos de imortalidade, que a tecnologia prometia, ou desejos de prolongar a vida, através do esforço, do exercício, de uma vida saudável, da ausência de traumas, enfim, com muita disciplina, eles também esmoreceram.





A epidemia veio lembrar-nos que permanecemos enraizados na nossa existência corporal com todos os perigos que isso implica. E, no entanto, temos dificuldade em admitir a vulnerabilidade a que estamos submetidos. Custa-nos aceitar que vírus, epidemias e morte fazem parte da vida. É como a dor e o sofrimento. A sensibilidade contemporânea entende-as como doença, erro, algo a ser negado, evitado ou corrigido.
Talvez seja necessário produzir novas imagens, outros sentidos, que façam existir tudo o que a negação da realidade tem impedido de revelar. Os números são utilizados para sustentar uma imagem que reproduz invisibilidade e que nega a gravidade e dor pelas mortes expostas nas estatísticas. É preciso imaginar uma nova vida sob condições virais. E isso passa também por não permitir que as consequências do momento actual transformem definitivamente o sentido da morte numa abstracção.

Vítor Belanciano - A Invisibilidade da Morte



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