Alles in Allem
«Falla-se do Japão; nem, francamente, devera presumir-se que eu ia referir-me a um paiz qualquer occidental, onde a nossa raça branca floresce.
É no Oriente, e em especial no Extremo-Oriente, que as coisas communs da creação ou os usos e costumes trviaes da vida são susceiveis de merecer um tal requinte de solemnidade sentimental e de praxes de rito, que constituam um verdadeiro culto. No espirito do europeu, despoetizado pela chateza dos ideaes da epoca atribulado pelas multiplices exigencias da vida, pervertido pela febre do negocio, não medram de ha muito os cultos. Especializando a observação ao chá, havemos de convir que este artigo de commercio, que de tão longe nos vem, propositadamente adulterado conforme o nosso gosto, no fim de contas se resume n'uma detestavel infusão que entrou em moda no sport social, simples pretexto para repastos pelintras, para reunioẽs banaes, para palestras vãs.
A Asia é outra coisa: a muitos propositos immersa ainda em barbarismo, se assim se quer dizer; com mil defeitos e mil erros, que a sabia Europa aponta a dedo e algumas vezes corrige, quando pode, com a logica dos seus conhoës de tiro rapido ; o que ella retem ainda, indiscutivelmente, esta Asia, é o caracter ancestral, nada vulgar, nada rasteiro, palpitante de orgulhos de raça, aprazendo-ne em sonhos e em chimeras, acariciando a lenda, divinizando as coisas, prodigalizando os cultos; o que é, em todo o caso, uma maneira amavel, de ir comprehendendo a vida.
Oh, fé dos velhos tempos!... Oh, santos patriarchas de tão varios paizes e tão diferentes seitas, tenazes campeões, que fostes incutindo nos simples a crença, a esperança, o amor, — balsamos consoladores das duras miserias d’este mundo, — como eu vos amo, a todos!...
Meus piedosos pensamentos elevam-se n'este momento a Darumá. Segundo a tradição da gente japonesa. Darumá, o grande apostolo indiano do buddhismo, veio á China ahi pelo começo do seculo VI da nossa era christã, e em terras chinezas prégou em honra da verdade, illuminado o espirito dos povos.
Consta que, por voluntaria desistencia das ephemeras alegrias terreaes, Darumá votou-se a passar a vida de joelhos sobre o solo pedregoso, absorto em contemplações mysticas, sem mesmo permittir-se o simples regalo de dormir. Tantos annos permaneceu de tal maneira, que as pernas se lhe gastaram, claro está; e é assim, sem pernas, só com a cabeça e com o tronco, envolto n'um manto carmezim, que ainda hoje é figurado. A imagem tornou-se querida e popular entre esta boa gente japoneza; é mesmo um brinquedo corriqueiro entre as mãositas das creanças, — os santos e os meninos vivem sempre em boa companhia; — lembrando o tal brinquedo o nosso frade de sabugo, pela teima em voltar, por mais voltas que lhe dêem, á sua postura habitual.
Deve ainda saber-se que Darumá tem dado assumpto, desde remotos tempos até hoje, a pintores da mais alta valia; Hokusai foi um d'elles, pintando um famoso Darumá sobre uma folha de papel de cerca de duzentos metros quadrados de grandeza, empregando oitenta litros de tinta no desenho e servindo-se de cinco vassouras á laia de pinceis: estendida a tela sobre o campo, no telhado de um templo a turba admirava a obra e applaudia o mestre.
Mas voltêmos no que aqui mais nos interessa, respeitante ao venerando vulto que invoquei, ajoelhado sobre as pedras. Consta mais que, em certa noite, as palpebras se lhe cortaram de fadiga, e o bom Darumá deixou-se adormecer, para só acordar pela manhã. Então, pedindo a alguem uma tesoira ou instrumento parecido, cortou a si proprio as palpebras indignas e arremeçou-as no solo, n'um gesto de despeito. . . As palpebras, por milagre, erraizaram, dando nascença o a um gracioso arbusto nunca visto, que medrou mui de prompto e cujas folhas, tratadas de infusão pela agua quente, fôram um remedio precioso contra o somno e contra o cançaço das vigilias. Estava conhecido o chá; tem pois na China a sua origem, e é coisa santa, como se acava de provar. Crê quem quer; mas devo advertir que este livro foi escripto para os crentes.
Da China, veio o chá para as terras de Nippon, mas não se sabe quando.[...]
[...] O plano do jardin submettia-se a regras determinadas, pelas quaes o engenho indigena se revelava em graças prodigiosas, aqui pelos contornos do lago e pelas pontesinhas que o cruzavam, alem pela escolha dos arbustos e das pedras, na intuição ingenua e amorosa de impôr á vista a illusão de uma paisagem rustica, reduzida a proporções minusculas. Mais do que isto: a alma das coisas, o que de inexplícavel e de subtil parece emanar de um conjuncto qualquer onde os olhos se poisem.— tranquillidade das sombras, arrogancia de um tronco, ternura das relva . . . — devia ressaltar suggestivamente do jardinsinho japonez, imprimir-lhe um caracter, uma philosophia, acordando na mentalidade dos visitantes um sentimento de paz, de triumpho, de saudade . . . Claro está que as flores de luxo, como as rosas, como as camelias, como as peonias, eram excluidas, por improprias da intenção de quadro agreste dada á scena.
Éra de estylo a monumental lanterna, tal como se encontra nos templos, de pedra, tanto mais valiora quanto mais esverdeada eroida de vetustos musgos, e espalhando pela noite vagas claridades coadas pelas suas frestasinhas cobertas de papel; os japonezes deleitam-ne em contemplar, após uma nevada, sua amplas cúpulas em umbella d'estas lanternas de templos e de jardins, receptaculos onde a neve poisa e se demora, em fofos vellos de formas extravagantes, de deslumbrante alvura. Um outro accessorio se encontrava, cerca do pavilhão: o pedaço de rocha bruta com uma pequena cavidade cheia de agua, onde os hospedes iam lavar as mãos antes de entrarem, como em purificação liturgica.
Até a linguagem empregada entre os convivas obedecia a regras de pragmutica: os assumptos de religião ou de politica eram banidos; a phrase devia modelar-se n'um agradavel discorrer, sem ferir melindres de ninguem. A cortezia impunha-se: preceituva-se que o hospede proferisse palavras de louvor pelo que via,— alfaias de serviço, arranjo do aposento, horisontes em volta,— mas sem insistencia em demasia, que poderia parecer pouco sincera ou pelo menos importuna.
Variadissimos objectos devem encontrar-se no aposento, como o brazeiro, o carvão de reserva contido n'um cestinho, a chaleira, o abano de pennas, o cachimbo, o tabaco, o pincel, o papel e a escrevaninha. Os artigos destinados particularmente ao chá, muitas vezes contidos n'um estojo especial, são os seguintes : a boceta com perfumes, que antes de tudo se lançam sobre as bruma e embalsamam o ambiente; a jarra com agua fria e a competente colher feita de um pedaço de bambu; o chá em pó n'am cofresinho de charão e a colherinha adjuncta; duas taças, de barro ou de porcellana, uma usada no verão, de côr clara, e outra escura, usada no inverno; um curioso utensilio feito de finas lascas de bambu reunidas em feixe, com que se agita na chavena a mistura do chá em pó com a agua morna; finalmente a tigela onde se lavam e o pedaço de seda, de finissimo tecido, com que se enxugam, as peças empregadas.[...]»
O Culto do Chá (1905) - Wenceslau de Moraes

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