Notti Bianche
“Li esta carta diversas vezes. As lágrimas toldavam-me os
olhos. Por fim, caiu-me das mãos e escondi o rosto.
- Meu menino! Eh, meu menino! – disse Matriona.
- Que foi, velhota?
- Já tirei a teia de aranha do tecto. Agora até já te podes
casar, se quiseres convidar amigos, tudo irá ficar em ordem.
Fitei Matriona. Era uma mulher ainda cheia de vivacidade,
uma velha jovem; mas, não sei porquê, pareceu-me de súbito com o olhar baço,
com rugas no rosto, curvada, estragada.
Não sei porquê, subitamente, pareceu-me que o quarto
envelhecera como Matriona. Paredes e soalho estavam sem cor, tudo ficara turvo
e obscuro; pareceu-me que as teias de aranha se tinham multiplicado. Não sei
porquê, ao olhar através da janela pareceu-me que, por seu turno, o prédio em
frente também escurecera, que o reboco das suas colunas se esboroava e caía,
que as cornijas tinham enegrecido e aberto fendas e que as paredes, de um
amarelo carregado e gritante, tinham perdido a cor.
Ou, então, um raio de sol que surgira subitamente por detrás
de uma nuvem carregada de chuva escondera-se de novo atrás dela, e tudo pareceu
escurecer novamente diante dos meus olhos; ou talvez que diante de mim tenha
num ápice perpassado, desagradável e triste, toda a perspectiva do meu futuro e
eu me tenha visto, exactamente como sou hoje, quinze anos depois, envelhecido, no
mesmo quarto, com a mesma Matriona, à qual todos esses anos não teriam tornado
mais esperta.
Mas que só eu recorde a minha dor, Nástienhka! Que eu não
chame com amargas censuras uma nuvem sombria sobre a tua clara e tranquila
felicidade, que não desperte no teu coração o arrependimento nem o amargure com
um secreto remorso ou o obrigue a bater com tristeza nos momentos de
felicidade. Que não faça fenecer as ternas flores que colocarás nos teus
cabelos negros no dia em que irás com ele ao altar.
Isso nunca! Nunca! Que o teu céu seja luminoso, que seja
claro e sereno o teu gentil sorriso e bendita sejas tu própria pelo minuto de
felicidade e de alegria que proporcionaste a um coração solitário e grato.
Meu Deus! Um minuto inteiro de felicidade! Afinal, não basta
isso para encher a vida inteira de um homem?”
Nem li o livro, nem vi o filme, infelizmente.
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