Clarabóia


“Com o quadro na mala do carro, circulei pela cidade, sem rumo, a pensar algumas destas coisas que viria escrever depois, deixando fugir outras que talvez importassem tanto como estas (tanto, tão pouco, ou tão muito como elas. Nota justificada de quem agora começa a aprender estas escritas: por que será que se diz tão pouco e não se diz tão muito?). A cidade, esta, qualquer, é uma coisa estranha. Forma-se por três razões, povoa-se de mil pessoas (ou milhares, ou milhões) e mantém-se formada quando as razões não existem (outras que entretanto surgiram formariam uma cidade diferente). Povoa-se a cidade, digo, de uns tantos muitos milhares ou de uns tantos poucos milhões de pessoas e consegue a proeza de manter junta, globalmente falando, essa população e de por muitos meios diferentes não permitir que ela se una. É como se a cidade se defendesse de quem a habita. As vontades juntas dos habitantes formam, sem que eles se apercebam, uma vontade diferente que passa a governá-los e que cuidadosamente os vigia. A cidade sabe, sabe-o essa vontade, sabe quem essa vontade encarna, que, se refeita a unidade dos habitantes, a soma final, mesmo em número igual, viria a ser de qualidade diferente: a primeira e inevitável transformação seguinte seria a da própria cidade. Por isso ela se defende. Parece estar certo (mas conviria discuti-lo) que o corpo seja dirigido por um órgão central, que é o cérebro (a discussão incluiria, como ponto a analisar, as vantagens e as desvantagens da existência de cérebros autónomos, mesmo que não independentes, que governassem os diversos órgãos e membros do corpo, a mão, o sexo, por exemplo). Mas a cidade não tem igual certeza, ou tem-na ao contrário, dos proveitos da existência de cérebros completos e funcionais, plenos e exactos, nos seus habitantes. Que seria de uma cidade de um milhão de habitantes, se a esse milhão de corpos correspondesse um milhão de cérebros?
 


Eis as casas, as pessoas, as ruas vivas, a sombra e o sol, as árvores, estes corpos metálicos móveis que são os automóveis, os eléctricos, os autocarros, eis as lojas com coisas penduradas ou arrumadas num espaço que não ousa dilatar-se ou mostradas por trás da protecção dos vidros, eis a pedra, o asfalto, as argamassas sob as tintas, os azulejos, eis a poeira, o lixo e o vento que os empurra, eis o andaime que levanta uma nova casa e o andaime que derruba uma casa velha, eis os monumentos, com homens quase todos e mulheres poucas e heráldicas, e outros heráldicos animais, ou simbólicos, ou úteis, leões, cavalos, alguns bois de trabalho, eis a cidade vista de perto, imagem entre uma infinidade de outras, e agora vista de longe, do outro lado do rio, de cima desta ponte que é cidade também, eis a crosta viva sobre a terra morta, ou viva apenas nas águas e verduras que por interstícios admitidos ou irreprimíveis brotam e rebentam, eis a ondulação, de longe suave, das casas, dos telhados, das cores, mesmo quando violentas amortecidas pela distância e por esta luz que é a da tarde antes imediatamente daquela outra luz a que costumamos chamar do fim da tarde, sem que dizer uma à outra, alguma coisa diga, porque a luz e a sua diferente qualidade não são traduzíveis em palavras como traduzível não é esta c idade, feita de tudo o que ficou escrito e do que falta, nem próximo nem distante, provavelmente inacessível, como o cérebro que a comanda e os homens e mulheres que nela estão não sendo.
 


Vejo Lisboa da esplanada deste aborto católico e imbecil que é o monumento a Cristo Rei, vejo a cidade e sei que é um organismo activo, agindo ao mesmo tempo por inteligências, instintos e tropismos, mas sobretudo vejo-a como um projecto que se desenha a si próprio, tentando coordenar as linhas que de todos os lados se encurvam ou lançam rectas, e também como o interior de um músculo ou um neurónio gigante, uma retina deslumbrada, uma pupila dilatando-se e contraindo-se sob a luz ainda clara deste dia. No interior da mala do carro, duas cabeças estão imersas em escuridão total. Mantêm os olhos abertos, não os poderão fechar nunca, estão condenados a uma eterna vigília (eterno, um quadro?), e as suas pupilas não se moverão se de repente a luz entrar, bruscamente, e fitar-me-ão interrogando-se a si próprias, agora que supõem ter-me julgado a mim. Sirva-me esta cidade de testemunha: estou inocente do que me acusam, não provavelmente do que me louvam."

Saramago 1977 MPC Pag. 243/5

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