E Unibus Pluram
"Fico sentado na garagem com a música aos berros e trabalho um pouco com grande relutância, ambivalência e sofrimento. Sinto-me cansado de mim mesmo, parece-me: cansado dos meus pensamentos, das minhas associações, da sintaxe e dos vários hábitos verbais que se revelaram primeiro como descobertas, se desenvolveram como técnica e daí passaram a simples tiques."
David Foster Wallace
«Ora, o espaço literário que se construiu consistiu numa luta para inventar e impor as leis específicas da literatura - contra a política, contra a religião, contra uma economia da utilidade e do valor social, pela conquista do monopólio da legitimação literária. E, por isso, precisou sempre do medium da reflexão, da abertura crítica e especulativa ao que se passava no seu interior. Sem auto-reflexão, sem essa inclinação obstinada ou até obsessiva sobre si mesmo, não há espaço literário. Parece que todos nós, que participamos de uma maneira ou de outra na coisa literária e exercemos no interior dela alguma função, por mais modesta e ínfima que seja, somos compelidos a seguir em frente, a avançar sem nos determos porque há uma força anónima e poderosa que pensa por nós. E, no entanto, quando nos detemos, vemos que foi tudo pulverizado, que a autonomia já só existe praticamente em curtas margens do sistema ou para aqueles que, tendo-a conquistado noutro tempo, quando ela era ainda uma condição geral e necessária, estão em condições de mantê-la. Tornou-se assim possível assistir ao espectáculo grotesco dos escritores que, de um momento para o outro, por fadiga ou inabilidade, são executados de maneira implacável pelos mesmos meios que antes lhes garantiram o sucesso. A maior parte daquilo que anima a "cena literária" tem, na verdade, uma condição pós-literária. Por exemplo, o pacto servil com aquilo a que chamamos romance, mas que é já só, na sua grande maioria, um género editorial (se pudessem, os editores dariam hoje o nome de romance a tudo o que publicam), é um pacto com a pós-literatura que se tornou hegemónica e vai criando o deserto à sua volta. Nada ilustra melhor esta condição pós-literária do que a passagem de uma literatura mundial a uma world fiction.»
António Guerreiro - A pós-literatura | Ípsilon de 18 Outubro
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