Na Gaiola
"Olhei para o rio, lá em baixo. Via as luzes amarelas do cais, os carros a passarem e um barco todo iluminado. E pensava no quadradinho do «Avante» onde publicavam as contribuições e num raio duma coisa para figurar na lista, à frente da minha quinhentola e ao lado das dos outros todos que assinavam «Viva Lenine», «O Amanhã é nosso» e coisas assim.
- Então?
Patrício estava a juntar a nota que eu lhe dera a duas outras já dobradas. Depois, guardou-as num dos bolsos da carteira. Tinha uma folha de papel pequenina e estava à espera para escrever o que eu dissesse, debaixo do que já lá tinha escrito e eu olhava para o barco e só me apetecia dizer «prestação para um lugar cativo na revolução», mas não disse. Disse:
- À cabeçada, venceremos.
Rimo-nos. Depois, ele disse:
- Não. Sério. Vá lá.
- É pá. Põe qualquer coisa.
Ele pegou na esferográfica, pôs o papelinho em cima da carteira e escreveu.
- Ponho Zé Pedro. Tá bem?
Olhámo-nos. Depois sorrimo-nos.
- Porque não?
Ele guardou o papel junto das notas, meteu a carteira e a esferográfica no bolso.
- A gente amanhã vê-se.
Abriu a porta e saiu.
Vi-o começar a descer a calçada, cruzando-se com um par de namorados que saía do jardim. Ela era ainda miúda, com uma camisola pelas costas, mini-saia azul, meias grossas, também azuis e umas botas que só lhe davam pelo tornozelo. Tinha o braço passado pela cintura do rapaz e a cabeça deitada no ombro dele.
Lídia. Lídia, Lídia, disse eu em voz baixa. E depois pensei que merda, daqui a pouco ponho-me a chorar.
Liguei o carro e dei a volta devagar. Acendi a telefonia e ouvi o locutor dizer: «Faltam cinco minutos para as vinte e três horas. Paulo de Carvalho canta "E Depois do Adeus"».
Não me lembrava se ainda tinha alguma garrafa no Porão, mas, pelo sim pelo não, fui andando para lá."
FIM
A Borboleta na Gaiola - Luís Filipe Costa (1984)
Colecção O Chão da Palavra nº22 Ed. Vega
For the Workingman's death
Desconhecia por completo...
ResponderEliminarSão as descobertas nos alfarrabistas e como já tem uns anitos, surgiu agora a oportunidade - o livro parece o guião de um filme, recortado pelas descrições de um grupo de amigos a viver esta época (e escrito dez anos depois).
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