Soif



«Porque tudo é uma questão de palavras, de voz, não se deve esquecer, deve-se tentar não o esquecer completamente, o que importa é haver uma coisa a dizer, por eles, por mim, não se sabe, é caso para pensar se toda esta confusão de vida e da morte não lhes é totalmente alheia, tanto quanto a mim. A verdade é que eles já não sabem a quantas andam, a quantas ando, eu nunca soube, eu ando onde sempre andei, não sei onde é, e ignoro o que isso significa, um processo qualquer, em que eu estaria encurralado, ou que ainda não teria abordado, não ando em lado nenhum, e é isso que os preocupa, querem que eu ande num sítio qualquer, seja onde for, se pudessem deixar de raciocinar, sobre eles, sobre mim, sobre o objectivo a atingir, e continuar apenas, já que é preciso, até ao esgotamento, não, isso também não, continuar apenas, sem a ilusão de terem começado um dia, de poderem um dia concluir, mas é difícil de mais, é difícil de mais, e desprovido de objectivo, não se querer ter um fim, uma razão de ser, um tempo em que não se existia. E na sede que se tem de alguma coisa para fazer, para já não ter de a fazer, para ter menos isso a fazer, também é difícil não esquecer que não há nada para fazer, nada de especial, nada de factível. E também é inútil, quando se tem sede, ou fome, não, não é preciso ter fome, a sede basta, quando se tem sede, é inútil contar histórias, para passar o tempo, as histórias não fazem passar o tempo, nada o faz passar, não importa, é assim, conta-se histórias, depois conta-se qualquer coisa dizendo, Isto já não são histórias, mas continuam a ser histórias, ou melhor nunca houve histórias, foram sempre coisas sem sentido, contou-se sempre coisas sem sentido, tanto quanto nos lembramos, não, muito antes disso, não nos lembramos de nada, sempre coisas sem sentido, sempre a mesma coisa, para passar o tempo, depois, como o tempo não passava, por nada, por se ter sede, querendo parar, não podendo parar, procurando o porquê, o porquê dessa necessidade de falar, dessa necessidade de parar, dessa impossibilidade de parar, e descobrindo o porquê, deixando de descobrir, voltando a encontrar, não voltando a encontrar,  deixando de procurar, continuando a procurar, deixando de encontrar, deixando de procurar,continuando a procurar, não encontrando nada, encontrando finalmente, deixando de encontrar, falando sempre, sempre sedento, procurando sempre, deixando de procurar, falando sempre, continuando a procurar, perguntando o quê, do que se trata, procurando o que se procura, exclamando Ah sim, suspirando Oh não, gemendo Basta, exclamando Ainda não, continuando a procurar, perdendo a cabeça, procurando a cabeça, continuando a contar, seja o que for, continuando a procurar, seja o que for, e a ter sede, já não se sabe de quê, ah sim, de alguma coisa para fazer, mas não, já não há nada para fazer, desde quando, desde sempre, e depois basta, a menos que, por acaso, se ande para aí à procura, mais um esforço, à procura de quê, é verdade, há que tentar saber, antes de procurar, o que se procura, antes de andar para aí, por onde, à procura, continuando a falar, continuando a procurar, em si, fora de si, deixando de procurar, perdendo a cabeça, amaldiçoando Deus, deixando de o maldizer, não aguentando mais, continuando a aguentar, continuando a procurar, na natureza, no entendimento, sem saber o quê, sem saber onde, onde é que está a natureza, onde é que está o entendimento, o que se procura, quem é que procura, procurando o que se é, último desvario, onde se está, o que se faz, o que se lhes faz, o que eles nos fizeram, continuando a falar, onde é que estão os outros, quem é que está a falar, não sou eu que estou a falar, onde é que estou, onde é o lugar onde sempre estive, onde é que estão os outros, os outros é que estão a falar, é comigo que falam, é de mim que falam, ouço-os, sou mudo, o que é que eles querem, o que é que eu lhes fiz, o que é que fiz a Deus, o que fizeram eles a Deus, o que é que Deus nos fez, não nos fez nada, nós não lhe fizemos nada, não podemos fazer-lhe nada,ele não pode fazer-nos nada, estamos inocentes, ele está inocente, ninguém tem a culpa, a culpa de quê, deste estado de coisas, que estado de coisas, é assim, assim seja, está sossegado, vai ser assim, o que é que vai ser assim, assim como, continuando a falar, e a ter sede, perdendo a cabeça, continuando a procurar...»

O Inominável (1953) - Samuel Beckett


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