舞踏
The spirit was gone from her body
Forever had always been inside
That shell had always been intertwined
And now were disintwined
It's hard to understand
«No princípio lembro-me: estava ao colo de alguém. Havia um terreiro, uma casa ao fundo, ou no meio, isolada. Nem árvores, nem arbustos, só um corvo esgravatava, na terra vermelha, como um borrão saltitante.
E o sol.
Meio-dia, talvez.
Porque a luz vinha de todos os lados, e na casa não se distinguia um refúgio, uma sombra: desenho trémulo, sem protuberâncias nem reentrâncias que, de vez em quando, um golpe de vento parecia arrastar.
— É ali.
A minha chegada são estas palavras, com a sua clareza, ditas por ninguém. Voz sem corpo que soava um pouco atrás de mim, voz sem nome, sem sexo. Voz que afastava as coisas. Que me começou a perseguir, que me continuou a perseguir, que ainda me persegue. Voz que estará, no instante da minha morte, a dizer-me:
— é ali.
Eu tinha nove meses e não deveria lembrar-me.
Mas lembro-me. Com a exactidão desfocada dos que não sabem morrer.
O mundo começava com uma chegada, que era uma partida. Com uma viagem. É ali: lugar a que mais tarde viria a dar um nome. Um lugar que começou a crescer, até não haver lugar algum. Ou só a indiferença de todos os lugares:
— Vais.
Mas espera-te o mesmo. De vez em quando, abre-se uma nesga na indiferença do mundo e um freixo torna-se claro, uma sebe, uma ponte, um muro, a pena de uma rola, os lábios, uma palavra. Deus. É ali. E eu vou. Olhos abertos para a desolação de uma casa no meio de um ermo, de um vento cor de barro. De uma voz. E não se abria uma porta, nem se dava um passo. Só a voz tinha princípio e fim. É ali. O braço esticado à minha frente. E o dedo indicador, cheio de nódulos, a apontar.
E os meus olhos.
Que se lembram.
Lembram-se de ver.»
Início de "Barro" | Relógio d’Água, 2012
(quase. Um regresso)
Entre prédios velhos, o empedrado brilha, os buracos, no basalto a água apodrece as tripas de peixe, e o céu é um recorte de telhas. Volto. Mas as vozes perseguem-me com o seu labirinto: são a distância que regressa, são as mesmas. (Quando murmuram todas as vozes são as mesmas). Dizem unicamente uma proximidade que não se consegue alcançar. Volto. A luz é agora um lago, o meio de um largo, com três araucárias e um muro de betão que não resguarda, um cinzento vertical no terreiro, cinco metros de sombra, uma noite sobrepõe-se a outra noite, os pés calcam a noite, esta, que range, de areia pisada. Volto. Todos os mortos me abandonaram. E atrás de mim ficou descampado onde não reconheço. Os restaurantes vazios, o brilho um pouco turvo dos copos, corredores vão de porta a porta, do largo vazio à rua vazia, nós comemos sentados no meio de mesas postas para ninguém, um criado olha-nos encostado ao balcão. Volto. Tu acompanhas-me, com a deliberação de um abandono. O tempo afasta-nos sempre, o tempo nunca aproxima, o tempo revela como se perde. Volto. Mas este retorno escondeu o lugar. Ou pior, dizimou-o, os teus passos dizimaram-no como um estrangeiro dizima a intimidade de uma casa. Volto.
Sem o compromisso da morte, o regresso é um abandono.
*
no presente
qualquer um é um rosto negado por alguém:
:
Os juncos mostram. Estagnada, a água de um lago imperfeito. Minúsculas, aceradas as vespas. Na sua cor, a química da morte é uma turbulência.
*
O silêncio torna-se sôfrego.
A fome dos silêncios cospe. Cospe-nos na cara.
Somos todos o sinal de uma antiga pobreza:
dedada de óleo, a impressão digital da fuligem:
os meus dedos são o que resta da ruína das fábricas.
Aí, aprenderam a vibração das máquinas, os ciclos de uma luz domesticada nos ecrâs que hoje distribui a indiferença pelos nomes. Neutra. Como se uma história fosse clara até ao seu início. Mas eu fugi, e escrevo agora para os insultos: os muros têm uma voz próxima e brutal. E entre dois muros nasce sempre um deus. A vigilância. Enquanto um homem, rente ao alcatrão, escapa.
Desde que.
O grande subúrbio.
Rui Nunes - Nocturno Europeu (2014)
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