Dong_Gara



Egídio Santos - Braga 1991




A Sibila é mais do que um personagem. Tem sido estudada à luz do materialismo histórico e do feminismo mais obstinado; foi vista como iluminada, como Nemésis vingativa, como complexada, como histérica, como simples mulher descarnada dos seus afectos e tardiamente reconciliada com o amor, o sexo e o drama que tudo isso envolve. Mas o que não foi dito é que a Sibila é uma experiência viva e, portanto, um mito. Ela vive a sua própria experiência, e para isso tem de romper todos os seus laços, excepto os que a ligam ao seu povo. Não cede à razão, ao tempo privado que significa um amigo ou um amante; que significa mesmo a majestosa e doce sombra paterna. Ela está preparada para a experiência, que é uma purificação através do elemento mítico: o laço com a terra.

Alfred Rethel - Nemesis (1837)

Nunca é oportuno falar de nós. Penso muitas vezes que adiamos continuamente as nossas contas com a própria vida; adiamos o nosso retrato, e só raramente damos uma pincelada mais, em geral para nos embelezarmos e mentirmos um pouco mais. Penso que recordar é mentir com sentimento. Excepto agir, tudo é mentir mais ou menos cegamente. O que fazemos é construir um claustro em volta desse jardim abandonado que é a infância de cada um. Um claustro onde andamos cautelosamente e sem fazer barulho, dando boa impressão de nós próprios e das boas intenções.

Agustina Bessa-Luís (Conferência em Granada, 1987)




Egídio Santos - Braga 1990

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