Whore Carrier

Colored version of the 'Whore of Babylon' - illustration from Martin Luther's 1534 translation of the Bible



« Observou de imediato: "Pensar Portugal é pensá-lo no que ele é e não iludirmo-nos sobre o que ele é. Ora o que ele é a inconsciência, um infantilismo orgânico, o repentismo, o desequilíbrio emotivo que vai da abjeção e lágrima fácil aos atos grandiosos e heroicos, a credulidade, o embasbacamento, a difícil assunção da própria liberdade e a paralela e cómoda entrega do próprio destino às mãos dos outros, o mesquinho espírito de intriga, o entendimento e valorização de tudo numa dimensão curta, a zanga fácil e a reconciliação fácil como se tudo fossem rixas de família, a tendência para fazermos sempre da nossa vida um teatro, o berro, o espalhafato, a desinibição tumultuosa, o despudor com que exibimos facilmente o que devia ficar de portas adentro, a grosseria de um novo-rico sem riqueza, o egoísmo feroz e indiscreto balanceado com o altruísmo, se houver gente a ver ou a saber, a inautenticidade visível se queremos subir além de nós, a superficialidade vistosa, a improvisação de expediente, o arrivismo, a trafulhice e o gozo e a vaidade de intrujar com a nossa 'esperteza saloia', o fatalismo, a crendice milagreira, a parolice."



Faltava contudo o outro lado da moeda: "Decerto, temos também as nossas virtudes. Mas, na sua maioria, elas têm a sua raiz nestas misérias. Pensar Portugal? Mas mais ou menos todos sabemos já o que ele é. O que importa agora é apenas pensá-lo - ou seja, pôr-lhe um penso." Não resistiu a acrescentar que Portugal, no contexto europeu e universal é "um apêndice da sarrabulhada mundial."



Era irreprimível a descarga de azedume. Mas foi tão intensa que tentou reconsiderar: "Releio o que escrevi e sinto-me desgostoso Eu não queria 'dizer mal' do meu país, como os homens de 70 que, nesse dizer mal, compensavam o seu complexo de não terem nascido lá fora. O meu destino quer - o totalmente cumprido cá dentro. Tenho ao meu país um amor raivoso e infeliz."

Vergílio Ferreira ou Portugal por dentro - António Valdemar na Tribuna do Público de segunda




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