Idade
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| Self Portrait - Louise Bourgeois (1990) Drypoint, etching, and aquatint. |
«A meu parecer, que ponho aqui mais como poesia do que como matemática - mas qual é a diferença? - a viragem decisiva para a entrada em nova fase do mundo se deu com a constitução política de uma Península diversa e una; a qual, embora pensada e debatida nos séculos XIX e XX, só teve forma a partir dos fins do XXI todas as regiões ou nacionalidades ou etnias, como se queira, tiveram uma inteira autonomia sem que, no entanto, se desirmanassem; se puseram de acordo quanto às bases da economia, passando da noção de propriedade colectiva para a de não-propriedade, o que bem difícil seria de entender para homens de tempos anteriores, esses mais que passados e enterrados: o que significou que ninguém foi nunca mais dono disto ou daquilo, excepto naturalmente o que era de uso pessoal de cada um, inclusive as casas com seus jardins e campos de recreio: a trra não foi mais nem sequer de Portugal; Portugal e a terra eram o mesmo, coincidiam, e era o solo tão livre como o ar - lá se foi também isso de mar exlusivo e de espaço aéreo - ou mais livre ainda do que o ar quem não mais tinha a propriedade fosse do que fosse;[...]
[...] O resto por si veio: milhões ou biliões de homens saíram da sua pré-humanidade, fizeram na idade própria o que lhes cabia de serviço civil - eu fui ordenança de hospital e cooperei nas Fidji durante três anos - e nunca mais ninguém lhes exigiu coisa alguma, a não ser que se realizassem. Somos agora livres, não de voar, como uma cantiga do século XX, mas de criar, o queé melhor: nosso reino é o sonho, nosso palácio o concreto; faço eu, por exemplo, o que posso na matemática do nulo e das somas não comutativas, o que me permite ir além do transfinito e substitui com vantagem o Zen de séculos pretéritos; no pilotar navio, em que estou como arte; e no grego clássico, mania que me deve ter vindo, no campo crossomático, de antepassado meu do século XX, por acaso, de nome idêntico; e ainda com tempo de passar a meus netos apontamentos como este que vou acabando de escrever. Até, por tudo, crendo que estamos no limiar daquela final Idade de que profetizou o bom Abade Joaquim; o pior é que ele já o julgava em seu século XII; sendo igualmente verdade que, se eu vou pela matemática, coisa alguma é final.»
Portugal e Cinco Idades | Outros Textos
«Então o político deixa-se dessa coisa de dizer que vai acabar com o desemprego e vai é perguntar quais são as necessidades do homem a quem chama desempregado. Eu estou entre os primeiros homens prontos a ter um ócio. E quais são os dois problemas desses homens? Um problema é o de comer, e o outro problema é o tal, o de estar ocupado. Isto é, exactamente o de empregar a imaginação; porque só se deve estar ocupado com aquilo que emprega a imaginação, o poder criador, aquela tal centelha interna que faz que muitos sujeitos digam que o homem é à imagem e semelhança de Deus. Eu não quero mais nada. eu não quero mais nada senão essa fagulhinha - as pessoas dizerem que o homem é à semelhança de Deus - ainda se consiga superar para incendiar o homem, aquele homem que nós conhecemos, e trazer verdadeiramente criadores ao mundo. Que coisa era Deus quando criou o mundo, se é que há Deus e se é que Ele criou o mundo? (Estou seguindo as Teologias tradicionais nas ocidentais praias lusitanas, não é?) Como é isso? Deus não tinha obstáculo nenhum pela frente; o obstáculo só lhe apareceu depois, com o primeiro anjo que achou que tinha planos próprios e acabou por dar no Satanás. Deus estava inteiramente solto. Nem sequer esitia uma coisa que se chama o Nada. Quando Deus começou a criar o Mundo nem o nada existia para atrapalhar, porque só Ele existia. Então, Ele é o poeta à solta. Deus pode ser definido como o poeta inteiramente à solta. Pois eu quero que os homens sejam poetas à solta.»
Agostinho da Silva - Deus e a Física (Ir à Índia sem abandonar Portugal) Assírio & Alvim 1994

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