Tied Milk




«Com efeito, uma determinada foto não se distingue nunca do seu referente (daquilo que representa), ou, pelo menos, não se distingue dele imediatamente ou para toda a gente (o que sucede com qualquer outra imagem, carregada à partida e por estatuto do modo como o objecto é simulado); perceber o significado fotográfico não é impossível (os profissionais conseguem-no), mas requer um segundo acto de saber ou de reflexão. Por natureza, a Fotografia (é necessário, por comodidade, aceitar este universal que, de momento, apenas remete para a repetição infatigável da contingência) tem qualquer coisa de tautológico: nela, um cachimbo é sempre um cachimbo, infalivelmente.

La trahison des images - René Magritte (1928/9)  Oil on canvas 63.5 cm × 93.98 cm

Dir-se-ia que a Fotografia traz sempre consigo o seu referente, ambos atingidos pela mesma imobilidade amorosa ou fúnebre, no próprio seio do mundo em movimento: eles estão colados um ao outro, membro a membro, como o condenado acorrentado a um cadáver em certos suplícios; ou ainda semelhantes a esses casais de peixes (creio que os tubarões, segundo diz Michelet), que navegam juntos, como que unidos por um coito eterno. A Fotografia pertence a essa classe de objetos folheados, onde não é possível separar duas folhas sem as destruir: o vidro e a paisagem, e, porque não, o Bem e o Mal, o desejo e o seu objecto - dualidades que é possível conceber e não perceber (eu não sabia ainda que dessa teimosia do referente em estar sempre presente iria surgir a essência que eu procurava).



Esta fatalidade (não há foto sem alguma coisa ou alguém) arrasta a Fotografia  para a desordem imensa dos objectos - de todos os objectos do mundo: porquê escolher (fotografar) um determinado objecto, um determinado instante, em vez de outro? A Fotografia é inclassificável porque não há qualquer razão para marcar esta ou aquela das suas ocorrências; ela gostaria, talvez de se tornar tão espessa, tão segura, tão nobre como um signo, o que lhe permitiria alcançar a dignidade de uma língua; mas, para existir signo, é necessário haver marca; privadas de um princípio de marcação, as fotos são signos que não se fixam bem, que se alteram como leite. Seja o que for que ela dê a ver e qualquer que seja a sua maneira, uma foto é sempre invisível: não é ela que nós vemos.»

A Câmara Clara - Roland Barthes (1980) Edições 70  Pág 18-20


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