Civil Union

Não sou ilhéu desta ilha segunda
nem tempestade aqui me reteve
não é o mar que me torna ilhéu
nem mesmo sei se essa natureza é
ou será alguma vez minha segunda pele
talvez fosse preciso rasgar a carne
(aqui ou em qualquer outra parte)
descer mais fundo sem rumo
ser ou não daqui não é destino
somos todos apátridas se um corpo
não se une ao nosso e funda um lugar
o meu sortilégio é apenas este
ser corpo noutro corpo aqui
eu ser ilha nele e ele em mim.





Adormeceste para fugir ao passado e tive vontade de te morder a boca
inebriar-me com o seu sabor a laranjas da toscânia onde passeámos
em sonhos que foram meus e que tomaste emprestados certas noites
num quarto de hotel fechado por cortinas desbotadas pelo sol
adormeci e sonhei que tudo isto se passou exactamente assim
e acrescentei-lhe campos de madressilvas e becos sem saída
e luzes amarelas que faziam tudo parecer dolorosamente verdadeiro
como o sangue a escorrer de forma acidental do teu polegar direito
a única coisa no poema que verdadeiramente dói.





O meu corpo enrosca-se na noite do teu corpo
adormecidas as minhas palavras ondulam na tua boca
da tua respiração soltam-se borboletas azuis
acordado sigo ainda os seus invisíveis trajectos
é neles que leio as palavras esquecidas na noite
uso cautelosamente o antigo saber divinatório
enquanto danças sobre a terra vestida de lavanda.





Não sei para que lado da noite me hei-de virar
onde esconder de ti o rio de fogo das lágrimas
quase a transbordar e acendo mais um cigarro
e falo atabalhoadamente de um futuro qualquer
e suspiro de alívio porque não ouves o que digo
ou se calhar também não sabes onde te esconderes
esperamos que se ilumine o lado certo da noite
é quando se esgotam as palavras e os silêncios
e a minha mão procura a tua que a recebe
e a noite se unifica e todos os rios secam
menos um por onde navegamos
para abolir a noite.

Carlos Alberto Machado
in Registo Civil– poesia reunida, Assírio & Alvim, 2009


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