Hunted Manz

Cada vez é mais difícil escrever sobre o que os outros escrevem, cada dia é mais complicado apartar do monturo alguma coisa que possa ter ainda préstimo. A literatura é agora, como ciclicamente aconteceu noutras épocas, hangar de desperdícios onde se acumulam dejectos, miudezas, ossos podres. Atrás da cerca espreitam trapeiros na mira de selecionarem o mais facilmente transacionável. Tudo o que a maioria aplaude ou rejeita conforme o condicionamento. Coisas fáceis que poderão apreender sem investimento, o que traduz nenhuma suspeita ou interrogação sobre a ordem do mundo. Mensagens sempre mais pobres diluindo-se em formas sempre mais básicas. Cultura de semi-analfabetos para semi-analfabetos batendo nas costas em sinistro jogo de espelhos. A pouco e pouco a rasura irá completar-se na ausência de escolhos, tesoura gigante aparando as desordens do medianíssimo contorno. Evita-se assim o perigo de rupturas ou derramamentos e poder-se-á depositar, sem temor, a desminada cultura nas mãosde audiências quase já sem cérebro. Nada disto tem qualquer importância, é apenas uma das leis que varrem periodicamente campos de tristes contendas. Depois há-de voltar a calma, devagarinho a poeira descerá.. Recomeçando tudo mais tarde com novos actores que apenas se distinguirão com alguma subtil maneira de representar.

Fátima Maldonado - Resgate 2017 Ed. Averno (Por onde se viaja? Pág. 97/8)




o lodo das palavras
foi a primeira visão da catástrofe
embora seja tão antigo
como a vontade de deus

o clarão do lodo anunciava
as tempestades
e os próprios anjos iam a correr
esconder-se

quando a tua mão procura a minha mão
um clarão percorre o mar inteiro
e vê-se o mundo até à raiz da memória.





não te esqueças de te esqueceres
para que o dia te pareça outro
não adies o adeus

o coração escurece para outro alvorecer
no fundo desse esquecimento verás a luz
e de súbito o clarão de uma verdade
que tanto procuraste

estás agora pronto para a água ácida da morte
como se de um beijo se tratasse
oferece a boca devagar
não tenhas pressa.




através do esquecimento
os mortos são sombra iluminada
atravessam o tempo na luz
em que ardem
csminham para uma sombra mais completa
onde finalmente repousam
sem a esperança de um outro mundo
ou outra vida

são dados ao murmúrio consta
e ao terror
mas não é por inveja.

manuel afonso costa - Os últimos lugares (2004) Assírio&Alvim


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