Lying Radar II
[...] Tais coisas são menos do que o trompete amarelo de um asfódelo do campo, muito menos do que a mais ínfima das artes visuais; porque assim como a Natureza é matéria aspirando a tornar-se espírito, a Arte é espírito exprimindo-se a si mesmo sob condições impostas pela matéria, e, por isso, até mesmo nas mais humildes das suas manifestações, ela se dirige, de modo idêntico, aos sentidos e à alma. Para um temperamento estético, o vago é sempre repulsivo. Os gregos eram uma nação de artistas porque passaram ao lado da noção de infinito. Como Aristóteles, como Goethe depois de ter lido Kant, aspiramos ao concreto, e nada senão o concreto nos poderá satisfazer.
- O que propões então?
-Quer-me parecer que, com o desenvolvimento do espírito crítico, seremos capazes de realizar não apenas as nossas próprias vidas, mas a vida colectiva da raça, tornando-nos, desse modo, absolutamente modernos, no verdadeiro sentido da palavra modernidade. Porque aquele para quem o presente é a única coisa que é presente, nada sabe da época em que vive. Para se compreender o século XIX, somos forçados a compreender todos os séculos que o precederam e que contribuíram para que ele surgisse. Para saber algo de nós próprios, temos de saber tudo dos outros. Não poderá haver estado de espírito com que não possamos simpatizar, nem modo de vida desaparecido que não possamos tornar vivo. Será isto impossível? Creio que não.
Ao revelar-nos o mecanismo absoluto de toda a acção, libertando-nos assim do peso embaraçoso e auto-imposto da responsabilidade moral, o princípio científico da Hereditariedade tornou-se como que a caução da vida contemplativa. Mostrou-nos como nunca somos menos livres do que quando tentamos agir. Enleou-nos nas redes do caçador, e escreveu na parede a profecia da nossa perdição. Somos incapazes de observá-lo, porque está dentro de nós. Somos incapazes de vê-lo a não ser num espelho que reflicta a alma. É Nemésis sem a máscara. É a última das Parcas, e a mais terrível. É o único dos Deuses de quem conhecemos o nome próprio.
E, todavia, enquanto que, no domínio da vida prática e exterior, privou a energia da sua liberdade e da actividade da sua escolha, no domínio subjectivo, em que a alma se move, vem até nós, essa sombra terrível, trazendo muitas dádivas nas mãos, dádivas de temperamentos estranhos e susceptibilidades subtis, dádivas de ardores selvagens e frias exibições de indiferença, dádivas complexas e multiformes de pensamentos que se contradizem entre si, e de paixões que se guerreiam mutuamente. Por isso, não é a nossa própria vida que vivemos, mas as vidas dos mortos, e a alma que vive dentro de nós não é uma entidade espiritual única que nos tivesse feito individuais e pessoais, que tivesse sido criada para nosso serviço e entrado em nós para alegria nossa.
É algo que habitou em lugares terríveis, algo que ergueu a sua mansão em antigos sepulcros. Enferma de muitas doenças, e tem memórias de curiosos pecados. É mais sábia do que nós, e a sua sabedoria é amarga. Enche-nos de desejos impossíveis, e faz-nos buscar o que não sabemos não poder atingir.Há, no entanto, uma coisa, Ernest, que é capaz de fazer por nós. Pode afastar-nos de lugares cuja beleza se embaciou nos nossos olhos pela névoa da familiaridade, ou cuja fealdade ignóbil e sórdidas pretensões estão a prejudicar a perfeição do nosso desenvolvimento. Pode ajudar-nos a deixar a época em que nascemos , e passar a outras épocas em que não nos sentimos estranhos no seu ar. Pode ensinar-nos a escapar da nossa experiência, e a entender as experiências dos que são maiores que nós.
In O Crítico como Artista - Oscar Wilde (inserido nas Intenções de 1891)
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