smooth burning
«Neste mundo dos media, afirma o investigador francês Patrick Charaudeau, assiste-se “à aproximação entre a esfera política e a esfera civil. O discurso político passa a englobar o discurso da vida privada”. O dirigente neo-populista tenta apresentar-se como uma réplica do homem comum. Como um de nós. Com os mesmos problemas. Com igual forma de viver. De se divertir. É vê-los em talk-shows. É vê-los em programas humorísticos, procurando desenvencilhar-se, o melhor possível, do incómodo entrevistador. É o dirigente político envolvido num espectáculo, enquanto actor desse mesmo espectáculo.
[...] Tal individuação da representação política, enquanto nova lógica mediática, agrada muito especialmente à televisão que lida melhor com a imagem do homem ou da mulher que fala. Que diz. Que desafia. Que ousa. Agrada mais à televisão que explora, assim, o sensacional, o insólito, na procura incessante das mais elevadas audiências.
A campanha para as eleições presidenciais de Marcelo Rebelo de Sousa é um exemplo perfeito desta individuação da comunicação mediática. Nada de longas caravanas de automóveis. Nada de gigantescos comícios. Apenas ele. Ou melhor: ele e o motorista de táxi, seu amigo, que o conduz pelas estradas do país. Ele que toma o pequeno-almoço no café do bairro. Como todos os dias. Ele que entra, desenvolto, na Sede de campanha do candidato rival. Ele que beija. Que abraça. Que cumprimenta. Sempre com o mesmo sorriso que lhe ilumina o rosto. Sorriso e rosto avidamente captados pela atenta câmara de televisão que, embora discretamente, não o larga, nem por um minuto. A cara que se mostra na TV é a narrativa metonímica do acontecimento que dispensa, assim, uma abordagem plural e aprofundada. A antropomorfização do acontecimento simplifica-o. Banaliza-o.
Decididamente, o neo-populismo constitui um dos principais dinamizadores da cultura tablóide.»
José Rebelo - Populismo e práticas jornalísticas
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| Escola de Atenas - Rafael (1509- 1511) |
A propósito da Gaffe da ministra e seu Infotainment
O meu coração desce,
Um balão apagado...
Melhor fora que ardesse,
Nas trevas, incendiado.
Na bruma fastidienta.
Como um caixão à cova...
Porque antes não rebenta
De dor violenta e nova?!
Que apego ainda o sustém?
Átomo miserando...
Se o esmagasse o trem
Dum comboio arquejando!...
O inane, vil despojo
Da alma egoísta e fraca!
Trouxesse-o o mar de rojo,
Levasse-o a ressaca.
in Clepsidra - Camilo Pessanha

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