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«Para mim, João Jorge nasceu na noite em que o mataram, nas hortas a caminho da Vila Chã. A minha avó materna dizia que, naquela madrugada, ouviu gritos vindos de perto do cemitério e, mesmo antes de ter ido à varanda, curiosa e apavorada e sem acender a luz, soube logo que acontecera uma grande desgraça. Até o fim da vida, quando falava de João Jorge, repetia os passos daquela madrugada distante, ia até a varanda, apontava para o lugar onde antigamente ficavam as hortas e dizia que naquela noite amarga, enquanto lavava a loiça, ouvira uns gritos assustadores, como se estivessem a matar porcos. No dia seguinte — e disso lembro‑me perfeitamente —, carregada com os sacos de compras, ofegante e muito vermelha, nem esperou para entrar em casa: “Mataram aquele teu primo, o João Jorge”, disse.
À minha avó associo o sentimento de incredulidade. Não era o de não acreditar — a dado passo da sua vida de católica não praticante converteu‑se às Testemunhas de Jeová e até o dia da sua morte num quarto do Hospital dos Capuchos, cega e incapaz de falar, permaneceu fiel ao seu Deus —, era o de achar tudo inacreditável, como se a realidade escolhesse propositadamente certos caminhos com o único intuito de a defraudar. Isso agravava‑se nas desgraças que nunca compreendia ou porque a vítima era muito nova, ou muito bonita ou muito bondosa.
No pensamento mágico da minha avó, havia sempre nas vítimas uma qualidade que as tornava especialmente dignas de comiseração. As coisas — boas e más — acontecem a toda a gente, em qualquer altura, mas a minha avó aceitava com dificuldade que as más acontecessem a uma pessoa determinada num determinado momento. Toda a gente tinha acidentes, adoecia e acabava por morrer, mas que o nosso vizinho do primeiro andar tivesse morrido inesperadamente, a fazer a barba, era um mistério inexplicável, pois não encontrava uma causa direta e plausível. Para a minha avó só havia uma explicação aceitável para as coisas: ou eram castigos ou eram recompensas. Fora dessa lógica tudo suscitava a sua incredulidade pasmada. O seu mundo ideal era um jardim de delícias e estagnação, onde nada aconteceria. Quando alguém morresse, desapareceria e, com ele, a memória dos outros, sem sofrimentos, sem os solavancos da incompreensão. Por que é que tinham matado João Jorge? Como é que alguém era capaz de matar assim uma pessoa, a sangue‑frio? Se nada disso tivesse acontecido, se João Jorge, em vez de uma memória negra semeada numa madrugada de inverno, estivesse vivo, a minha avó gostaria de ter partido primeiro, levada tranquilamente por um barqueiro para um lugar distante, onde não estaria nem morta nem viva, nem presente nem esquecida.»
Início de "Hoje estarás comigo no paraíso" © 2017 by Bruno Vieira Amaral
Rangia entre nós dois a música da areia
como se fosse Agosto a dedilhar um sistro
Agora está fechada a casa onde te amei
onde à noite uma vez devagar te despiste
Floresça o clavicórdio em pleno mês de Outubro
Na harpa de Setembro entrelaçou-se a vinha
A que vem de repente entre os dois este muro
feito de solidão de sal de marés vivas
Podia conjurar-te a que não me esquecesses
mas é longe do Mar que os navios são tristes
De que serve o convés com a sombra das redes
Quis a tua nudez
Não quis que te despisses
David Mourão-Ferreira
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