Adrizza Spaventosa
«[...] A obra de Agustina cobre, desde há meio século — quando apareceu na cena portuguesa como uma revelação —, a roda do nosso sol literário. A imagem parecerá obscura ou inadequada, pois isso queria dizer que a obra de Agustina ensombrou a paisagem literária nacional quando seria preferível dizer que ela a incendiou, que a assolou pela sua energia criadora, a sua proliferante presença, a sua diversidade de interesses e temas e, sobretudo, a sua incodificável e inconfundível originalidade. Não a posso comparar senão a uma sarça-ardente, a qualquer coisa que, como a bíblica representação da presença ofuscante de Deus, queima e ilumina. “Fogo e luz que em si mesma se consomem” e sem cessar se renovam, pois de nada mais vivem que da entrega sem entraves aos poderes de uma imaginação que os deuses lhe deram para que usasse dela como quem brinca, que é a maneira mais séria de existir.
A palavra de Agustina é tão caoticamente libérrima, tão rente à voz clónica da Sibila onde de uma vez para sempre se identificou com a vocação e o destino que escolheu de exprimir como em transe as revelações mais obscuras do sangue, do sentir, do sonho, do delírio, que é uma pretensão ridícula tentar remetê-la para aquela visão humanística da literatura que precisamente a espécie de milagre da sua ficção veio desarrumar e nunca mais será o que era antes dela.
Ninguém nasce de uma bolota, dizia Homero. Agustina descobriu a sua voz lendo — e imaginamo-lo como se ninguém tivera lido nada antes dela — sem muitos conselhos, entregue aos mil livros que lhe caíram nas mãos, na solidão povoada da sua infância, sonhando-a neles, inventando-a neles, refazendo-a, povoando a sua extraordinária memória das coisas vividas única na nossa literatura — dessa segunda vida, unicamente imaginária, a verdadeira vida, aquela onde o vivido se transfigura numa espécie de ópera permanente, com ela no centro ocupando ao mesmo tempo todos os lugares do palco.[...]»
Evocação de uma émula de Xerazade - Eduardo Lourenço
“A aldeia de Adriços, com os seus charcos barrentos, a igrejinha em ruínas, um calor de terras de Ur, o respiradouro fofo das toupeiras aberto pelo monte e onde os tacões de abatiam como numa armadilha, era toda ela deveras bastante herética em coisas de urbanização. As calçadas, com lajes polidas pelas enxurradas e o rodado de ferro dos carros de bois, tinham como única bênção a sombra dalgum velho brasão aquartelado, com o basto paquife derrubado sobre o escudo inglês. Via-se dali o dente rombo e nevoento do Marão, e toda a serrania calva e solitária tinha um ar de garra encolhida sobre a grande província agreste e, no entanto, sensível. A corda de montes fronteiros era extremamente hospitaleira, povoada, com aquela cor rósea e setecentista dos palácios pombalinos e a face encaliçada dos armazéns; as vinhas, com as ferrugentas cepas parecendo abandonadas naquela distância em que apenas as aves tocavam, estendiam-se, trepavam. Cobriam colinas e os lombos do monte, amparadas com os muros de xisto.
O vento de Primavera era ácido e penetrante, fazia rolar o pó, protegendo a enfloração; debaixo do dardejar do solo, as valeiras rasgadas eram como arreganhos em que o sangue da terra, avarenta e esganada, coagulasse. O corrupio da perdiz entre os bardos, o súbito rolar dum calhau, provocavam na alma um fino sobressalto. Via-se Sedielos, o Vacalar, as suas janelas relampejavam ao crepúsculo como se as casas estivessem incendiadas; quase no flanco de São Domingos, cuja capela afonsina se via de toda a região que era bacia do Douro, ficava Adriços. O dorso escalavrado da montanha, com as goelas das antigas ruínas sarracenas, voltava-se para o Sul; para o lado de Adriços era despenhadeiro mais suave, de pedra solta que no Inverno rolava como laranjas atropelando ainda o texugo lerdo cuja felpuda cauda sofria grandes riscos. A loba vinha parir a sua ninhada bem perto das choças mortas das últimas vinhas. Via-se o rio. Como uma pintura chinesa, liso, tímido, e constante, entre as penhas que eram como pétalas fossilizadas, como o aço claro e despedido por entre as serras, via-se o rio”.
O Susto (1958) - Agustina Bessa-Luís
Comentários
Enviar um comentário